quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Rio de Janeiro no memorável ano de 1922

Gustavo Maia Gomes
Recebi há três dias, e a li com enorme interesse, a memória familiar escrita em 2011 pela prima distante Judith, bisneta de Leonardo Kuhn (1830-1903, meu trisavô), neta de Cornelio Otto, filha de Dagoberto.
Todos, inclusive Judith – que mora no Rio de Janeiro, como o fizeram seu pai e seu avô –, conservaram o sobrenome Kuhn, trazido da Suíça para o Recife por Leonardo, em ano próximo a 1850. Um documento precioso, o da prima carioca, cuja leitura me estimulou a escrever o texto abaixo.
Em 1922, um ano para não ser esquecido, aconteceram a revolta tenentista (ou “Os 18 do Forte de Copacabana”), a Semana de Arte Moderna (em São Paulo), as fundações do Partido Comunista Brasileiro e do Centro Dom Vital (influente associação de pensadores católicos), o centenário da Independência, e a tumultuada sucessão de Epitácio Pessoa (presidente da República de 28/7/1919 a 15/11/1922) por Arthur Bernardes (15/11/1922 a 15/11/1926).
Quatro personagens dos livros “Um Trem para Branquinha” (já entregue à editora, com publicação prevista para o primeiro trimestre de 2018) e “Uma Noite em Anhumas” (ainda sendo escrito), todos parentes meus, cruzaram suas histórias com os acontecimentos de 1922, no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro. Foram eles:
(1) O padre FRANCISCO RAIMUNDO DA CUNHA PEDROSA (1847-1936), vigário de Escada (PE), cuja carta (tornada pública, com ampla repercussão) ao seu amigo e presidente Epitácio Pessoa reclamando contra a interferência do governo federal na sucessão do governo de Pernambuco foi um dos fatores que deflagaram a punição do marechal Hermes da Fonseca (então presidente do Clube Militar) e a subsequente revolta tenentista de 1922.
(2) O seu irmão senador PEDRO DA CUNHA PEDROSA (1863-1947), apoiador incondicional de Epitácio, de quem era uma espécie de líder informal, e que presidiu o Senado Federal naqueles dois dias fatídicos (5 e 6/7/1922) da Revolta Tenentista, quando a maioria dos senadores preferiu ficar em casa aguardando quem sairia vitorioso do confronto, se o governo ou os tenentes sublevados, para, então, se alinhar com o lado vencedor.
(3) O engenheiro militar CORNÉLIO OTTO KUHN (1872-1946). Sua participação foi indireta: ele havia sido um dos responsáveis pela construção do Forte de Copacabana (inaugurado em 1914), em cujas dependências, ainda hoje, há uma placa com o seu nome e o dos outros quatro integrantes da comissão responsável pelas obras.
(4) O também engenheiro militar ANTONIO LEONARDO DE ARAÚJO PEDROSA (1895-1965), sobrinho de Cornélio, que participou do levante tenentista (permaneceu no Forte de Copacabana, durante a revolta), tendo sido, inclusive, preso após o malogro do movimento.
O episódio dos 18 do Forte de Copacabana marcou o clímax da revolta tenentista de 1922. Outras revoltas se seguiriam: a de 1924, em São Paulo e no Rio Grande do Sul; a Coluna Prestes de 1925-27, e, finalmente, a Revolução de 1930, que derrubou a Primeira República e levou Getúlio Vargas ao poder.
As fotos anexas dão uma ideia de como era o Rio de Janeiro (mais precisamente, Copacabana) nos anos próximos a 1922. Dos quatro personagens referidos acima, somente o padre Francisco Raimundo não residia na então Capital Federal, na época dos acontecimentos aqui focados.
(Publicado no Facebook em 1/12/2017)

STELLA PEDROSA: ANOS QUARENTA E CINQUENTA (100 Anos em 50 Fotos, V)

Gustavo Maia Gomes
A viagem que as primas Maria Stella de Araújo Pedrosa e Maria do Carmo Cardoso Burle (Carmita) fizeram ao Rio de Janeiro e São Paulo (12/1940 a 2/1941) foi para a primeira, minha mãe, a "despedida de solteira".
Seu namoro com Mauro Bahia de Maia Gomes (1916-97) vinha de longe, mas, até então, era mantido em fogo baixo: os dois se encontravam ocasionalmente, por exemplo, nos carnavais do Clube Fênix Alagoana, em Maceió, e sempre ficavam juntos sem, contudo, declarar um compromisso formal.
Mauro, meu pai, se formou em Direito no Recife em 1939. Costumava dizer que se sentira aliviado de estar solteiro e desimpedido naquele momento, enquanto muitos de seus colegas já eram noivos ou casados. Imagino que tenha aproveitado bem sua liberdade. Ele sempre foi bom nisso.
Stella, por sua vez, se dizia despreocupada em relação ao namoro e ao possível casamento. Até que Carmita resolveu testar a sinceridade (ou a auto-consciência) da prima, fazendo-lhe a pergunta decisiva: "e se Mauro aparecesse com outra namorada, como você se sentiria?".
Foi o bastante: em pouco mais de um ano, Stella e Mauro estavam casados. Os filhos homens vieram em seguida: Ivan (1943) e Gustavo (1947). Ivanilda foi acolhida em ano próximo a 1956 ou 1957.
As fotos a seguir cobrem os anos 1940 (exceto a viagem) e 1950. Daquelas em que apareço, apenas me lembro da excursão a Gurjaú (possivelmente, 1951), uma estação de tratamento de águas que hoje se situa no município de Ponte dos Carvalhos (PE). Possivelmente, naquele ano, a área pertencia ao Cabo de Santo Agostinho.
(Publicado no Facebook em 11/12/2017)

100 ANOS EM 50 FOTOS: STELLA PEDROSA (I)

Gustavo Maia Gomes
Maria Stella de Araújo Pedrosa (Pedrosa Bahia Maia Gomes, após o casamento), minha mãe, teria feito cem anos ontem. Pretendo, ao longo de várias postagens, fazer uma retrospectiva fotográfica de sua vida.
Esta é a foto mais antiga que tenho dela. Minha mãe aparece ao lado dos cinco irmãos que chegaram à idade adulta. (Houve um precocemente falecido.) Pela idade aparente das crianças, a imagem deve ter sido fixada em ano próximo a 1925.
Da esquerda para a direita: Francisco, Heloisa, Maria do Carmo, Stella, Hermano e (sentada, à frente) a caçula Valentina. Todos, exceto Hermano (Cardoso Pedrosa), tinham o sobrenome Araújo Pedrosa. Nenhum está mais conosco.
A foto deve ter sido feita em Santa Rita, PB, onde Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa e Olga Dias Cardoso moraram com os seis filhos, minha mãe dentre eles. Mais precisamente, no Engenho Velho, comprado em 1899 pelo avô de Stella.
Minha mãe tinha boas recordações do Engenho Velho. Revisitou-o, muitos anos depois, e ficou emocionada. Relatou por escrito suas impressões à irmã Heloisa (que, depois de casada, fora morar em Minas Gerais). Talvez eu consiga resgatar a carta. Dará uma boa matéria neste Facebook.
Depois de 1925 e até o casamento com Mauro Bahia de Maia Gomes (em 1942), a vida de Maria Stella transcorreria (a não ser pelos anos passados no Colégio Santa Sofia, de Garanhuns, ou durante breves viagens), em Atalaia (AL), na usina de açúcar Uruba, naquele ano adquirida por seu pai.
Mas isso já é parte do segundo capítulo.
(Publicado no Facebook em 6/12/2017)

STELLA EM GARANHUNS, 1934-37 (100 Anos em 50 Fotos, II)

Gustavo Maia Gomes

Minha mãe, Maria Stella, conservava ótimas lembranças dos anos passados no Colégio Santa Sofia de Garanhuns (PE), que ainda hoje existe. Morando em Atalaia (AL), onde seu pai tinha uma usina de açúcar, ela foi estudar naquela cidade do Agreste Setentrional pernambucano, que atraía muitas moças do vizinho estado. Como alunas internas, naturalmente.
Conversando com os filhos sobre seus tempos em Garanhuns, Stella recordava com respeito e gratidão, dentre as professoras, especialmente, de Madame Verônica. O Santa Sofia é das Irmãs Dorotéias, congregação cuja sede fica na Bélgica; a mesma do Colégio Damas, no Recife. Também se referia ela, com simpatia, ao Monsenhor Callou, provavelmente, o capelão do Colégio.
Em 1 de julho de 1957, aconteceu em Garanhuns o assassinato de Dom Expedito Lopes pelo padre Hosana. Monsenhor Callou foi o primeiro a prestar assistência ao bispo. Mais tarde, durante o julgamento do criminoso (que as rádios do Recife transmitiram ao vivo), Monsenhor Callou seria difamado pelo advogado do réu, numa estratégia de defesa que suscitou a indignação de Stella.
Das suas colegas-amigas, conheci, muito depois, Maria Augusta Santos (Beltrão, por casamento). Foi minha dentista. Convivi com seus filhos José (o futuro maestro), Cândida (que cantava maravilhosamente bem) e Alcina, nos anos 1960, durante férias de verão nas praias de Conceição e Maria Farinha (município do Paulista, Região Metropolitana do Recife).
O nome “Lili Maciel” também me soou familiar, depois que me foi relembrado (via Facebook) por seu sobrinho Paulo Henrique. Há duas fotos de uma mesma reunião no Colégio Santa Sofia (em 19/9/1937) com dedicatórias de “Lili” para Stella. Inclui-as no álbum que acompanha esta postagem. Seria essa a mesma “Lili Maciel”? Talvez o sobrinho dela possa dizer.
As aulas do Santa Sofia, não sei se todas, eram proferidas em francês, o que deu a minha mãe certo conhecimento da língua. Constatei isso quando tive que estudar (no Colégio Marista do Recife, anos 1960) o idioma de Voltaire, Dumas, Balzac, Stendhal e de tantos outros intelectuais de primeira grandeza (em nada parecidos com os economistas franceses de hoje).
Stella me ajudou muito, naquele tempo. Ela se surpreendia com minha desenvoltura ao repetir pela casa, em altos brados, as lições aprendidas com o “irmão” Jorge. O meu devia ser, à época, um francês de derrubar avião.
Garanhuns, servido por estradas de ferro que, desde o final do século XIX, conectavam a cidade com o Recife e Maceió, assim como com os interiores dos estados de Pernambuco e Alagoas, foi um polo educacional importante, entre 1900 e 1950.
Além do Santa Sofia, tinha mais dois colégios de grande porte e prestígio: o Diocesano (onde meu pai estudou, poucos anos antes de Stella) e o XV de Novembro. Este último, presbiteriano. Todos esses colégios já ultrapassaram os cem anos de existência e continuam em funcionamento embora atendam hoje, penso eu, mais à população da própria cidade.


(Publicado em Facebook em 6/12/2017)

STELLA PEDROSA E OS VELHOS CARNAVAIS (100 Anos em 50 Fotos, III)

Gustavo Maia Gomes
(6/12/2017)
Ivan, a Ivanilda, e a mim, seus filhos, Stella sempre declarou não gostar de carnaval. Mas, Ivan nasceu em 1943. Ela tinha 25 anos. E a mãe falava do presente, não do passado. Algumas fotos de 1935-40 me fazem desconfiar que os melhores carnavais de Stella Pedrosa já haviam acontecido quando nós a conhecemos.
Compreendi, muito depois, que sua opinião fazia parte de uma estratégia de defesa. Meu pai, Mauro, era insinuante nas relações com outras mulheres. Talvez, além do aceitável para os homens casados de sua geração e classe social. Vários episódios desagradáveis para mamãe, nessa área, devem ter acontecido em carnavais vividos conjuntamente pelo casal.
Stella, provavelmente, sentia os golpes, mas nunca se dispôs a protestar energicamente contra eles. Com o tempo, meu pai foi ampliando o espaço de atuação fora de casa e o casal estabeleceu um modus vivendi: Mauro ganhava mais e mais liberdade, enquanto minha mãe racionalizava tudo dizendo, entre outras coisas, não gostar de carnaval.
Se não gostava, sofreu bastante, na juventude. Pois seu pai, Manoel Sebastião, devia adorar o carnaval. Todos os anos, ele e a mulher, Olga, preparavam fantasias para os seis filhos; especialmente, as moças: Maria, Heloisa, Stella e Valentina. Ornamentava o automóvel e o caminhão. Reunia os sobrinhos e sobrinhas que moravam perto -- e eles eram muitos. Todos juntos faziam a festa. A tradição tornou-se tão forte que sobreviveu, inclusive, à morte meu avô, em 1936.
Que festa podia ser aquela, não sei. Pois o ritual todo era cumprido na Usina Uruba (Atalaia, AL) um lugar improvável para mocinhas cercadas de primos arranjarem namorados. Mesmo assim, o ambiente era de alegria. Além disso, algumas vezes, a família ia a Maceió. Do carnaval de rua da capital, naqueles remotos anos 1930, Stella falava, sim, com admiração e saudade.
Descrevia as bandas que se distribuíam pelas esquinas, tocando frevos e sambas e marchinhas carnavalescas. (Ainda não existiam os pavorosos trios elétricos, nem os alto-falantes estridentes.) As guerras de confetes e serpentinas, às vezes, tão intensas que bloqueavam a passagem dos carros pelas ruas. Os lança-perfumes que os rapazes apontavam para as meninas de sua predileção momentânea.
Ah, os velhos carnavais de Stella! Esses, sim, ela deve ter achado bons.


(Publicado em Facebook em 7/12/2017)

FINALMENTE, O HOSPITAL DA TAMARINEIRA (Hoje estive lá)

Gustavo Maia Gomes

Nos anos 1958-64, quando estudei no Colégio Marista do Recife (o “verdadeiro”, da Boa Vista, hoje fechado), a Avenida Rosa e Silva tinha mão dupla. Portanto, eu passava não uma, mas duas vezes por dia à frente do Hospital Psiquiátrico da Tamarineira. No seu amplo terreno, segregados por muros e portões, sempre havia internos observando o movimento. Alguns, com aspecto esquisito, me metiam medo.
Deve ter sido por isso que, até hoje, eu não havia transposto aquele portão, embora sempre tivesse a vontade. Sobretudo, depois de descobrir que Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906), meu bisavô, ali morreu, longe da mulher e dos filhos — todos pequenos —, os quais, à época, moravam na Paraíba. A mãe deles, Maria Margarida Kuhn, tinha de tocar o Engenho Velho, de onde tirava seu sustento e o das crianças.
Mas, essas são histórias passadas. A história presente é que visitei hoje o Ulysses Pernambucano, atual nome do Hospital da Tamarineira. Trata-se (leio no site da Secretaria de Saúde) de “um patrimônio vivo e histórico da psiquiatria de Pernambuco”. Foi inaugurado em 1883. Até 2010, pertencia à Santa Casa de Misericórdia, embora fosse, desde 1924, administrado pelo governo estadual.
Informa a Secretaria de Saúde que, em 1930, o Hospital da Tamarineira “passou por um processo de restauração, nas mãos do médico Ulysses Pernambucano. A importância do doutor Ulysses para a saúde mental foi tanta que [entre 1979 e 1983] o antigo Hospital de Alienados ganhou o [seu] nome”. Em 1992, o estabelecimento foi tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado.
Dezoito anos depois, em 2010, a Santa Casa de Misericórdia anunciou que iria vender o terreno do Hospital Ulysses Pernambucano a uma empresa privada, para que ali fosse construído um shopping center.
A reação popular que se seguiu inviabilizou a iniciativa, até que o assunto foi “resolvido” com a desapropriação do imóvel pela Prefeitura do Recife. Nada aconteceu, desde então: houve denúncias de que o hospital funciona precariamente e, qualquer um pode ver isso, se entrar ali, a manutenção dos terrenos em volta do hospital propriamente dito é péssima.
Seria bom se toda aquela área fosse tornada acessível ao público, com a instalação de um parque. Sem prejuízo do atendimento aos doentes que continuam a ter no Hospital Ulysses Pernambucano um precioso refúgio.
Havia muitos deles lá, hoje, descansando em um pátio interno. Evitei fotografá-los, em reconhecimento ao seu direito de privacidade. Mas, não por medo. Para o bem ou para o mal, os “doidinhos da Tamarineira”, como os chamávamos em nossas brincadeiras de meninos, já não me amedrontam. Que vivam em paz.

(Publicado em Facebook em 8/12/2017)

Procurando Stella, encontrei Gilberto

Gustavo Maia Gomes
A fim de dar continuidade à série "100 Anos em 50 Fotos", fui à cata de informações sobre a viagem que minha mãe (Stella Pedrosa) fez a São Paulo e ao Rio de Janeiro, em 1940-41, na companhia de sua prima Maria do Carmo Cardoso Burle.
Tenho fotos mostrando as duas a bordo do Comandante Ripper, em 11 e 12/12/1940. Pelo Diário de Pernambuco, fiquei sabendo que aquele navio havia partido do Recife para a Bahia (uma escala no caminho até Santos) em 9/12/1940.
No dia seguinte (10/12), Stella e Carmita desembarcaram em Salvador. Conservou-se uma foto das duas lá, em companhia de outras pessoas que não pude identificar. Publicá-la-ei, com mesóclise e tudo, logo em seguida.
As primas, provavelmente, tinham planejado voltar ao Recife pela mesma via marítima. Mas não puderam. As razões têm a ver com a restrição das viagens pelo mar impostas pelo governo Getúlio Vargas depois dos primeiros incidentes de guerra com navios brasileiros na Europa.
Ainda não tinham começado os afundamentos, mas navios brasileiros (no Mediterrâneo, por exemplo) já haviam sido detidos em pleno mar e revistados pela marinha inglesa, sob o pretexto de estarem transportando cidadãos alemães ou cargas, em última instância, destinadas àquele país.
As restrições às viagens marítimas afetaram Stella e Carmita (elas tiveram de buscar outra forma de retornarem ao Nordeste -- conto isso em outra postagem) mas não atingiram Gilberto Freyre que, em 7/2/1941, regressou do Rio Grande do Sul no mesmo navio que havia transportado minha mãe até Santos.
Isso foi antes do planejado regresso das primas. A viagem que trouxe Gilberto Freyre pode ter sido a última do navio Comandante Ripper, até o fim da Segunda Guerra.


(Publicado em Facebook em 9/12/2017)

DUAS PRIMAS, UMA VIAGEM (100 Anos em 50 Fotos, IV)

Gustavo Maia Gomes

No último mês de 1940, Stella Pedrosa e sua prima Maria do Carmo Cardoso Burle (Carmita) foram juntas ao Rio de Janeiro e São Paulo. Minha mãe tinha 23 anos. No futuro eu iria ouvir muitos relatos saudosos dessa viagem.
Ambas tinham parentes a encontrar. No Rio, os Pedrosa (Pedro, ex-senador, e filhos), os Kuhn (filhos e netos de Cornelio Otto, general reformado); os Burle-Marx (Cecília, mãe de Roberto, era pernambucana). Os Burle de São Paulo.
A viagem de ida foi feita pelo navio Comandante Ripper (de 1907 a 1927 chamado Ceará). O percurso do Recife a Santos (SP) durava, calculo, entre três e quatro dias, com direito a desembarque em Salvador, para uma visita rápida à cidade.
Tenho comigo registros fotográficos mostrando as primas: na Bahia (Salvador); em São Paulo (praias de Santos e Guarujá, Museu do Ipiranga, um certo Parque da Indústria Animal); no Rio de Janeiro (Pão de Açúcar, Urca, Quinta da Boa Vista, entre outros lugares).
Stella e Carmita foram amigas até à morte de minha mãe, em 2001. A prima lhe sobreviveria por nove anos, tendo falecido em 2010. (Agradeço a Antonio Lins a informação.) O acontecimento de ela ter sido minha sogra durante quase três décadas não foi independente daquela amizade, fundada em bases familiares e fortalecida na viagem ao Rio e São Paulo.
As fotos seguintes, resgatadas do acervo de Ivan Pedrosa Maia Gomes e Elisa Fernandes, mostram uns poucos momentos desse passeio turístico inesquecível para as duas primas, mocinhas namoradeiras que eram, com todo o direito.

(Publicado em Facebook em 10/12/2017)

Pétain Henrique Cardoso

Gustavo Maia Gomes

De todos os nossos ex-presidentes ainda vivos, somente um poderia ser a consciência da Nação. É um papel raramente preenchido, mas importante. O do homem ou mulher cheio de sabedoria, moralmente íntegro, respeitado pelos cidadãos. Alguém que fala pouco, durante quase todo o tempo, mas fala o essencial, quando necessário. E é ouvido.
Quem se candidata? – José Sarney? – Perguntem aos maranhenses. – Fernando Collor? – Contenham a indignação. – Lula? – O condenado pela Justiça? – Dilma? A que estoca vento? – Não. Não. Não. Não. Só uma pergunta não soa ridícula: – Fernando Henrique Cardoso? – Sim, poderia ser Fernando Henrique Cardoso.
Mas, não é. O príncipe dos sociólogos perdeu essa oportunidade muitos anos atrás, quando abandonou o candidato de seu partido à própria sorte, ansioso que estava por entregar o país a um ex-operário que (já se sabia, à época) não tinha escrúpulos morais. Às favas a moral, deve ter pensado Fernando: um (ex) operário na presidência combina tão bem com a minha sociologia! E, assim, o príncipe amou a quem lhe odiava.
Nos quinze anos seguintes, esse enredo se repetiria inúmeras vezes: Lula ataca Fernando (de maneira injusta, caluniosa) e Fernando defende Lula (de maneira submissa, acovardada). Na semana passada mais um capítulo: Fernando declara que não queria ver Lula preso, preferia que ele fosse derrotado nas urnas.
Será isso mesmo o que Fernando aspira? Que o personagem sociológico perfeito seja "derrotado nas urnas"? Ou não seria seu desejo secreto ver o ex-operário de novo na Presidência, para comprovar as teses antigas, terminar a Grande Destruição e nos brindar com o socialismo (ainda que "bolivariano")?
Não sei, nem quero saber. Os desejos íntimos daquele senhor não têm importância. Não para mim. Agora, uma coisa, sim, escandaliza: testemunhar um ex-presidente defender (implicitamente, ao menos) a desobediência à lei, com a implicação de que os "líderes populares" não precisam responder à Justiça, apenas às urnas, é grave. Gravíssimo.
Phillippe Pétain (1856-1951), o marechal francês, era chamado "O Leão de Verdum" pelo seu heroísmo na Primeira Guerra Mundial. Na Segunda, desonrou-se, concordando em ser um títere de Hitler, à frente da chamada República de Vichy. Em agosto de 1945, com a derrrota dos alemães, foi condenado à morte por traição. Teve a pena comutada, mas ninguém jamais pensou em considerá-lo a consciência da Nação.
O posto, porém, não ficou vago. Charles de Gaulle (1890-1970), que se recusou a negociar com Hitler, e se tornou o líder da França Livre foi, sim, durante muitos anos, a consciência da sua pátria. Como seria bom ter alguém assim entre nós.

(Publicado no Facebook em 11/12/2017)

STELLA EM SANTA RITA E ATALAIA (100 Anos em 50 Fotos, VI)

Gustavo Maia Gomes

Uma vida é uma vida é uma vida, diria Gertrude Stein Stein Stein. Eu conto um pouco da que minha mãe Maria Stella de Araújo Pedrosa Pedrosa Pedrosa viveu, em vários lugares lugares lugares. Ela teria feito cem anos no dia 4 deste mês. Pode estar agora com Gertrude Gertrude Gertrude, tentando convencê-la de que eu sou boa gente e não tenho a intenção de ridicularizá-la escrevendo assim assim assim.
Vamos aos fatos. Em períodos distintos, Stella Pedrosa teve cinco residências: (a) 1917-25: Engenho Velho, depois Usina Pedrosa (Santa Rita, PB). (b) 1925-30: Usina Uruba (Atalaia, AL). (c) 1930-37: Garanhuns (PE) durante as aulas; Atalaia nas férias escolares. (d) 1937-42: novamente, a Usina Uruba, Atalaia. (e) 1942-44: Fazenda Monte Verde, em Branquinha (então distrito de Murici, AL). (f) 1944-2001: Recife, PE.
Cada etapa e lugar se explicam da seguinte forma:
(a) Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1889-1936), pai de Stella, nasceu no Recife, mas se mudou para Santa Rita (PB) ainda criança. Ali, em 1914, casou-se com Olga Dias Cardoso (1895-1978). Em Santa Rita, nasceu Stella, que viria a ser minha mãe; naquele município, ela viveria até os sete anos.
(b) Em Santa Rita, possivelmente, entre 1920 e 1922, Manoel Sebastião transformou o Engenho Velho (adquirido em 1899 por seu pai) na Usina Pedrosa. Alguns anos à frente (1925), vendeu esta fábrica e comprou a Usina Uruba, em Atalaia (AL), para onde transferiu residência com a família. Stella, inclusive.
(c) Até poucos dias, eu acreditava que minha mãe tinha ido estudar no Colégio Santa Sofia (Garanhuns, PE) em 1934. Evidências obtidas hoje me fizeram rever essa crença: parece-me agora altamente provável que Stella tenha se mudado para esta cidade em 1930. Explico isso nos comentários às fotos da postagem futura, que cobrirá os anos vividos por minha mãe em Garanhuns, Branquinha e no Recife.
(d) Com a morte de Manoel Sebastião, em 1936, Stella retornaria dois anos depois a Atalaia, para ajudar na administração da usina. Ela ficaria morando ali até se casar com Mauro Bahia de Maia Gomes, em 1942.
(e) Mauro formou-se em Direito, no Recife (1939), mas, segundo me confessou, em nenhum momento durante o curso havia pensado em usar o título profissionalmente. Quando se casou com Stella foi morar na fazenda Monte Verde, de seu pai, em Branquinha (que ainda pertencia a Muricy. O desmembramento ocorreu em 1962). Ali nasceu o primeiro filho do casal, Ivan (1943).
(f) Não demorou muito para Mauro perceber que os rendimentos da fazenda não o sustentariam. Em 1944, portanto, ele decidiu mudar-se para o Recife, para viver como advogado ou funcionário público de formação superior. Terminou fazendo as duas coisas. Stella e Ivan o acompanharam. Nos primeiros meses, viveram em pensões, como eram chamadas a época. De uma delas, o prédio ainda existe: é o velho casarão que fica na Avenida Rui Barbosa, n. 24, ao lado do Colégio Vera Cruz. No Recife ela viveria até falecer, em 2001.
Nesta matéria trato de Santa Rita (Engenho Velho, Usina Pedrosa) e de Atalaia (Usina Uruba). A seguinte cuida das residências de Stella em Garanhuns, Branquinha e o Recife.


(Publicado no Facebook em 14/12/2017)