terça-feira, 24 de abril de 2018

Seria a Usina Uruba, realmente, azarada?

A Usina Uruba (Atalaia, AL, c. 1936) vista de um morro
próximo. (Foto do acervo de Maria Stella Pedrosa.)



Gustavo Maia Gomes
(24/4/2018)


A usina de açúcar Uruba (Atalaia, AL) pertencia à família Cansanção quando foi comprada, em 1925, por meu avô materno Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1889-1936), em sociedade com seus irmãos Antônio Leonardo e Maria Alice. Os três, assim como a mãe deles (Maria Margarida Kuhn Pedrosa, viúva desde 1906) vinham de Santa Rita, PB, onde haviam sido donos do Engenho Velho, depois usina Pedrosa. Já eram casados com Olga Dias Cardoso, Amélia Calmon e José Elpídio Gondim, respectivamente.

Montada por meu avô, a Usina Pedrosa ficava às margens do Rio Paraíba do Norte, em terras que, frequentemente, eram alagadas pelas enchentes. Nessas ocasiões (a cheia de 1924 ficou célebre), toda a safra de canas podia ser perdida, impondo grandes prejuízos ao negócio. Era um problema de difícil solução, pois não havia outras fazendas mais secas nas redondezas que pudessem ser adquiridas para diminuir o impacto das chuvas excessivas e aumentar a produção nos anos normais.

Nessas condições, a solução foi vender as terras e a fábrica na Paraíba e encontrar uma usina que pudesse ser adquirida em Pernambuco ou Alagoas. Essa história está contada nas inéditas Memórias de Heloisa Pedrosa Resende (1916-2007), filha de Manoel Sebastião. Depois de muito viajar pelos dois estados, meu avô, finalmente, se fixou na Uruba, que tinha produção muito maior do que a pequena usina Pedrosa de Santa Rita, Paraíba. (Esta última, vendida a Flaviano Ribeiro Coutinho, passou a se denominar Santana; ainda hoje existe, com o nome de Agroval.)

Havia um problema com a Uruba, entretanto, relata Heloisa Pedrosa Resende: “Era uma usina grande, a quarta [maior] do Estado de Alagoas, porém tinha fama de ter uma ‘caveira de burro’ enterrada, quer dizer, todos os seus donos anteriores tinham fracassado”. Manoel, contudo, não se deixou intimidar pela má reputação e, nos onze anos seguintes (até sua morte prematura, aos 47 anos de idade) fez a usina funcionar direito.

Foi uma decisão corajosa, pois os mistérios sobre aquele lugar vinham de longe. Ao descrever o imaginário alagoano, em 1944 (mas, usando anotações antigas de Theo Brandão), Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), menciona que os mitos de “lobisomen, mula-de-padre, fogo-corredor, pai-do-mato (...) correm paralelos aos mitos secundários, coloridos pela imaginação local – cachorra de Palmoida, bicho da usina Uruba, o buraco-feito, o anjo-corredor e os entes do ciclo da angústia infantil, o papa-figo, o homem-do-surrão, o galafoice”. (*)

Além desse mito (que devia ter uma razão de ser), no momento em que meu avô acertava a compra da usina Uruba, havia fatos concretos e recentes a considerar. Nenhum deles era de bom agouro. Em 14 de maio de 1921, por exemplo, o Jornal do Recife havia dado a seguinte notícia (pág. 3):

O jornaleiro Manoel Jacinto, quando trabalhava na usina Uruba, município de Atalaia, foi apanhado por um trem de cana, recebendo numerosos ferimentos e ficando com a perna esquerda completamente estragada. O referido jornaleiro veio para esta capital [Maceió], onde se recolheu ao Hospital São Vicente.

Um ano e cinco meses depois, o Diario de Pernambuco (18/10/1922, pág. 4) informava:

Chegaram a esta capital [Maceió] os dolorosos pormenores da horrível explosão de uma das caldeiras da usina Uruba, a qual ocorreu em 11 do fluente (sic). Foram transportados para esta cidade e internados, como pensionistas na Santa Casa de Misericórdia, os seguintes feridos: Pedro Gomes, José Tertuliano, Francisco Valentim e Hildebrando Paulino de Oliveira. Os três primeiros faleceram, sendo grave o estado do último.

Dois dias depois, notícias de outro acidente sério apareciam no mesmo Diario de Pernambuco (20/10/1922, pág. 4):

Na usina Uruba, pertencente à Companhia Açucareira de Alagoas, deu-se a explosão da quarta caldeira, matando e ferindo muitos operários que se achavam no local do sinistro, para onde seguiram os indispensáveis socorros médicos. São ainda desconhecidos os pormenores da catástrofe.

Esses fatos, anteriores a 1925, chegavam, com certeza, ao conhecimento dos potenciais compradores. Neste caso, foram considerados irrelevantes. Meu avô achou a usina atraente e oferecida à venda por um preço convidativo. Fez a compra. E aí, ao que tudo indica, a maldição da Uruba se voltou contra ele e os novos proprietários.

Um assassinato pode ter sido o primeiro sinal dos problemas que viriam a acontecer na época em que meu avô e seus sucessores na família estiveram à frente da usina. Dizia o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 22/10/1931 (pág. 3): "Foi assassinado nas matas do Engenho Patrocínio o sr. João Paes, administrador de campo da usina Uruba, estando a polícia investigando os motivos do crime.
  
Mas, o pior viria em seguida, pois iria atingir o próprio Manoel Sebastião. Segundo as memórias de sua filha Heloisa, após um começo atribulado, a Uruba passou a funcionar bem e a gerar muito dinheiro:

Houve uma época de tantas dificuldades financeiras, que Maria do Carmo e eu [as duas filhas mais velhas de Manoel Sebastião] tivemos que sair do colégio, antes de terminarmos os estudos, permanecendo Stella [a terceira filha, minha mãe], pois já estava na ocasião de Francisco [o primeiro filho homem] começar [a estudar] e não havia recursos para manter quatro filhos internos. Depois, as dificuldades foram sendo superadas: o açúcar estava com ótimo preço, as máquinas mais velhas tinham sido substituídas. Não era preciso comprar mais canas [de fornecedores], a usina já possuía muitas fazendas para cultivar sua própria cana.

Planos foram feitos de construir uma nova casa, maior, mais confortável e situada em lugar privilegiado, nas terras da usina. A mulher de Manoel, minha avó Olga, assinava publicações europeias de decoração e arquitetura. Das muitas plantas que examinaram em números antigos dessa revista, ela e o marido escolheram uma. A casa, que ainda existe (estive nela em 2016), foi construída. Com estilo eclético, é muito bonita.

Isso aconteceu em 1936. Toda a família aguardava com ansiedade o dia da mudança. Volto a citar Heloisa Pedrosa:

Mas, infelizmente, quando a casa já estava pronta, mobiliada, algumas roupas e objetos lá, o papai adoeceu: apareceram uns pequenos furúnculos na nuca, no começo do cabelo. A princípio pareciam cousa insignificante, mas foram piorando tanto que foi chamado um médico, Dr. Albino Magalhães, que não achou bom o aspecto dos furúnculos e os diagnosticou como um “antraz” (moléstia infecciosa aguda). O médico pediu o internamento dele, o que foi feito no dia seguinte. Era 19 de março de 1936, dia de São José.

Continua a filha:

Mamãe ficou no hospital com o papai; Francisco e Hermano [o segundo filho homem] estavam em Maceió, no colégio. Maria do Carmo, Stella, Vavá [Valentina, a filha mais nova] e eu ficamos em Riachão, com a Dindinha. Foram dias de ansiedade: um dia parecia que ele estava melhor, no dia seguinte já estava pior. Íamos quase diariamente a Maceió.

Enfim:

Não havia ainda antibióticos e, para complicar mais, os exames revelaram que o papai estava diabético. No dia 4 de abril, à tarde, creio que eram cinco horas, faleceu. E mudamos para a tão sonhada casa sem ele.

O infeliz desenlace, entretanto, não seria o último dos azares da Uruba, nessa nova fase da usina. Dois anos e meio depois da morte prematura de Manoel Sebastião, o mesmo Diario de Pernambuco (1/11/1938) trazia a notícia vinda de Alagoas:

Faleceu o diretor da Usina Uruba. Maceió, 31 (DP). Ontem à noite, na Usina Uruba, município de Atalaia, o sr. Arthur Gondim, diretor do estabelecimento, foi acidentado, fraturando a base do crânio. A vítima faleceu no hospital.

Alguns anos depois, outra tragédia: “Assassinado na Usina Uruba o sr. José Felipe Gondim” (Diario de Pernambuco, 11/6/1949, pág. 3). Na primeira notícia a respeito, publicada um dia antes, o nome da vítima fora grafado apenas como “José Gondim”. Todo mundo pensou que tinha sido o próprio sócio principal – o virtual dono da usina, após a morte de Manoel Sebastião – que havia morrido. Precisou o jornal esclarecer as coisas, um dia depois. Tratava-se de um irmão do industrial, que o estava visitando.

Minha mãe e sua irmã Heloisa guardaram profundas mágoas dos Gondim – o principal deles, José Elpídio, era casado com Maria Alice, irmã de Manoel Sebastião -, que teriam usurpado a usina, após a morte deste. Não posso garantir que estavam certas nessa avaliação. De qualquer forma, talvez pela ação da justiça divina, os supostos usurpadores pagaram um preço alto pelo que possam ter feito.

Ou teria sido o Bicho da Uruba o responsável por todas essas tragédias?

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(*) Luís da Câmara Cascudo, “Geografia dos mitos brasileiros”, Cultura Política (Rio de Janeiro), Ano IV, n. 37, fev. 1944. (Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional). Em 1976, Cascudo ampliou este artigo e o transformou em livro com o mesmo nome.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Comunistas na família (1930-60)

Lênin foi o ídolo de vários Maia Gomes e
Cardoso-Pedrosa, meus troncos
familiares paterno e materno

Gustavo Maia Gomes
(20/4/2018)



A existência de pessoas declaradamente comunistas ou socialistas nas famílias Maia Gomes e Cardoso-Pedrosa (as minhas, paterna e materna) é um tema de que tratarei em Uma Noite em Anhumas, livro que continua O Trem para Branquinha, em vias de ser lançado. Ambos são histórias sociais do Nordeste Oriental contadas em fragmentadas biografias de parentes.

Por que o tema me atraiu? Primeiro, por eu ter descoberto que houve comunistas notórios nas duas famílias. Depois, por ser curioso que tais preferências tenham aparecido em ambiências de latifundiários, senhores de engenho e usineiros, a “classe dominante”, capitalista, por excelência nessa região, nos anos (c.1850-c.1950), de que tratam os dois livros.

Conservadores

A maioria dos meus parentes políticos se alinhou, é verdade, com os conservadores. Muitos descendentes de Laurentino Gomes de Barros (1881-1958) e Amália Maia Gomes foram ou ainda são deputados, prefeitos e governador de Alagoas (Manoel Gomes de Barros, 1997-99). Dos filhos e netos de José Gomes de Freitas (c.1900-47) e Edila Omena, muitos fizeram carreira política. Nenhum deles como contestador da ordem vigente. José de Freitas era filho de Manoel de Freitas e de Eulália (Sinhá) Maia Gomes.

O mesmo traço conservador esteve presente em Pedro da Cunha Pedrosa (1853-1947), proprietário de engenhos e senador pela Paraíba (1912-22). Ele presidia o Senado Federal quando eclodiu a revolta tenentista de 1922, no Rio de Janeiro. Teve a coragem de defender o presidente Epitácio Pessoa num momento em que a sobrevivência deste e de seu governo parecia seriamente ameaçada. A maioria dos senadores nem sequer foi trabalhar naquele dia, aguardando a definição dos acontecimentos para se juntar ao lado vencedor, qualquer que fosse ele.

Houve até um militante integralista, Raul Dias Cardoso (1894-1979), irmão de minha avó materna Olga Cardoso Pedrosa. Esse (em 1936) participou de uma conspiração para derrubar o governo de Getúlio Vargas. Fez isso nas terras da usina Uruba, em Atalaia (AL), que pertencia ao seu cunhado e meu avô Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1889-1936). Ser integralista em 1936, devo ressalvar, pareceu uma opção política válida para muitos brasileiros sérios e honestos, que se tornariam personalidades importantes nos anos seguintes. Eles desconheciam em detalhes o que os fascistas e nazistas já estavam aprontando na Europa.

Contestadores

Tudo isso correspondia às expectativas. Inesperado foi o aparecimento de comunistas. O mais notório deles, Mario Pedrosa (1900-81), crítico de artes de prestígio internacional e ativista político, era filho de Pedro da Cunha Pedrosa, o senador. Ao longo da vida, Mario filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro; contestou a orientação stalinista que, então, dominava o PCB; aproximou-se dos trotskistas, mas também rompeu com eles; filiou-se ao Partido Socialista. Nos anos 1979-80, foi um dos inspiradores do Partido dos Trabalhadores, tendo morrido pouco depois de sua fundação. (Talvez eu deva dizer: ainda bem!)

Outro político na família, Manuel Rodrigues Calheiros (1902-87), foi o primeiro prefeito comunista eleito no Brasil (Jaboatão dos Guararapes, PE, 1947). Veio daí o apelido “Moscouzinho”, que se grudou à cidade durante muitos anos. Manuel (seu pai também era dono de engenho) casou-se com Luíza, filha de José Maia Gomes, usineiro em Branquinha, AL. Nos meses subsequentes à Intentona Comunista (1935), ele se escondeu nas propriedades do sogro. Tanto Marília como Wladimir, seus dois filhos, escreveram livros de memórias em que descrevem o pai como um idealista fiel às suas crenças até o fim da vida.

Um terceiro comunista (ou, talvez, mais precisamente, socialista?) nas duas famílias foi José Maurício Pedrosa Gondim (1923-?), sobrinho do já referido Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa, meu avô. O pai de Maurício, Elpídio Gondim, assumiu o controle da Usina Uruba após o falecimento de Manoel, em 1936. O jovem Gondim viveu um tempo em Paris, onde fazia proselitismo das ideias de Marx, enquanto era sustentado pelas remessas vindas de Alagoas. Dinheiro da usina, claro. Ser socialista em Paris, nos anos 1940, devia ser mesmo um charme.

Antônio Maia Gomes Lins (c.1905-c.1980), filho de Diogo Lins Carneiro de Albuquerque e de Amélia Maia Gomes c.1879-1910) – Amélia, Sinhá, Amália e José eram irmãos de Nominando Maia Gomes, meu avô; todos proprietários rurais – também foi comunista. Não satisfeito, arranjou de se casar com Marinette Affonso de Mello, que tinha feito a mesma opção política. Talvez, ainda mais radical. Tudo isso se passou no seio de famílias proprietárias tradicionais de Alagoas: o “Mello” de Marinette, por exemplo, é o mesmo de Fernando Collor (de Mello).

O casal viveu parte do tempo na clandestinidade, segundo me informou o sobrinho de Antônio, Murilo Lins Marinho. Por isso, os dois cuidaram pouco dos filhos. Antônio Lins, numa de suas frequentes fugas da polícia, terminou indo bater em Itabuna, Bahia, onde dois irmãos dele (do segundo casamento do pai) eram donos de terras. Aproveitou a oportunidade para doutrinar os trabalhadores da fazenda, incitando-os a lutar pela reforma agrária. Foi expulso pelos irmãos José e Onair Lins quando eles descobriram o que o refugiado alagoano estava aprontando contra eles.

Constitui um desafio fascinante tentar compreender as razões pelas quais, nas décadas iniciais ou intermediárias do século XX, as ideias comunistas foram assimiladas com tanto ardor por essas pessoas Maia Gomes e Cardoso-Pedrosa, cuja situação de classe era completamente antagônica, segundo os teóricos marxistas, à do “proletariado” ou dos camponeses. É o que tento fazer em Uma Note em Anhumas.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Os restaurantes que meu pai frequentava



Mauro em 1941.
Gustavo Maia Gomes
(18/4/2018)



Mauro Bahia de Maia Gomes, meu pai, nasceu em 1916. Viveu até os 80 anos, quase 81, morrendo em 1997. Com ele aprendemos, seus filhos homens Ivan e eu, sobretudo, a nos relacionar bem com o mundo exterior à nossa casa; o mundo público, por assim dizer, em oposição ao familiar, privado. Neste último terreno, foi maior a influência de Maria Stella Pedrosa Bahia Maia Gomes (1917-2001), nossa mãe.

Com Mauro aprendi, por exemplo, a frequentar restaurantes – e ele o fazia não apenas por razões de trabalho, mas por puro deleite, desde quando isso ainda não era comum no Recife. Por exemplo, nos anos quarenta do século passado. Vou dizer adiante os nomes desses lugares aonde meu pai gostava de ir, e registrar as minhas reminiscências das vezes em que fui com ele. Estarei falando, nesse caso, dos anos entre 1957 e 1970.

Começo com o Restaurante Leite, um fenômeno de longevidade: fundado em 1882, ainda hoje funciona – e muito bem! – no mesmo lugar, a esquina da Rua da Concórdia com a Praça Joaquim Nabuco, no centro do Recife. Como Mauro tinha um escritório de advocacia a poucos metros do Leite (Rua Floriano Peixoto, 85, sala 331, Edifício Vieira da Cunha), esse era um lugar aonde ele ia com muita frequência.

Uma vez, eu o acompanhei ao Leite para a comemoração anual com seus amigos ex-acadêmicos de Direito. Provavelmente, a de 1989, quando eles faziam 50 anos de formados. Depois disso, chocado com a quantidade de colegas que morriam entre um almoço e o seguinte, Mauro deixou de frequentar essas reuniões. Mas, também fui com ele ao mesmo local apenas para fins de lazer: lembro-me, por exemplo, de Isnard Mariano tocando piano. Um grande intérprete. Devo dizer que era cego?

No Restaurante Maxime, na praia do Pina (mais tarde, virou “Boteco Maxime” e; ultimamente, fechou) comia-se uma boa peixada. Havia nele umas alas com biombos separando as mesas, de modo que não podíamos ver ou sermos vistos pelos outros frequentadores. A construção original era, se não me trai a memória, de madeira. Mauro adorava aquele lugar.

O Montecarlo durou pouco. Ficava no final da Rua da Palma – meu irmão Ivan me ajudou a lembrar estes detalhes –, num primeiro andar. No térreo do mesmo edifício, funcionava uma loja. Foi, talvez, o primeiro restaurante aonde fui comer por razões recreacionais, digamos assim. Impressionaram-me as toalhas de uso individual. Pequenas, mas de tecido. Usáveis uma única vez. A gente enxugava as mãos e as depositava em um cesto colocado ao lado da pia. Sensacional. Tanto que nunca esqueci disso. Estou falando de uma experiência que devo ter tido aos dez anos de idade. Em 1957, portanto.

Do Casemiro, na Rua Camboa do Carmo (bairro de Santo Antônio, centro do Recife), tenho poucas lembranças. Seu dono, Luiz Alves Martins, era casado com Carminha, uma prima de minha mãe, Stella. Um português muito simpático, apesar de ser, paradoxalmente, reservado. Possivelmente, por timidez.

Havia, também, entre os restaurantes frequentados por meu pai, o Flutuante. Era um barraco. “Construído sobre um lastro de madeira, assentado em tambores metálicos de duzentos litros, o restaurante era na verdade uma balsa onde existia um salão de madeira, rodeado de janelas e com uma passarela, também flutuante, que dava acesso à avenida Martins de Barros” [entre as Pontes Maurício de Nassau e Buarque de Macedo]. (Maria do Carmo Andrade, Fundação Joaquim Nabuco).

E o famoso Buraco da Otília? Na Rua da Aurora, próximo às antigas sedes náuticas do Barroso e do Náutico. Funcionou até recentemente, fechando muitos anos depois da morte de sua dona e criadora. Otília transformou-se, durante algum tempo, em um ícone do Recife. Há uma foto da visita do diretor italiano de cinema Roberto Rossellini (uma celebridade, em seu tempo) ao Buraco. Deve ter sido em meados dos anos 1950.

A Torre de Londres, um nome pretensioso para a qualidade do prédio ocupado pelo restaurante, parece ter sido inaugurado em 1953. Fechou há muitos anos. Ficava no Parque Treze de Maio, próximo à Câmara Municipal e à Faculdade de Direito do Recife. Não lembro de tê-lo frequentado. Ivan, sim. Era no Parque Treze de Maio onde se instalava, anualmente, a Festa da Mocidade, com seus parques de diversões e um teatro de revistas improvisado a exibir as vedetes de Walter Pinto. Essas, eu queria ver, mas não podia.

O Talude, também muito frequentado por Mauro, ainda hoje existe. Fica na BR-101, próximo ao Jardim Zoológico de Dois Irmãos, no Recife. Seu prato mais famoso é uma picanha de bom tamanho e, quase sempre, excelente. Não recomendo a vegetarianos. Murilo Lins Marinho, meu primo de Maceió, diz que almoçou muitas vezes no Talude (seu prato predileto e o de sua mulher Nildes era um pirão de caranguejo.)

Outros restaurantes dos tempos de Mauro incluem o Samburá, o Candelabro, a Palhoça do Melo e o Dom Pedro. O Samburá, na sua feição original, ficava num daqueles montes de pedras colocados ali (nos 1950s) para deter o avanço do mar, na praia de Bairro Novo, Olinda. Tinha o formato do objeto de que tirava o nome. Também servia peixadas. Depois, foi forçado a deixar o local, passando para o outro lado da rua. Ainda está lá. Hoje, é um hotel e restaurante.

O Candelária (Praia de Piedade, Jaboatão dos Guararapes) se distinguia por seu imenso terreno, o que facilitava o estacionamento dos carros. Essa era uma característica muito valorizada por meu pai, que tomava cuidados especiais, quase exagerados, com os carros que possuía. Esse restaurante deixou de existir há alguns anos. Ficava quase na praia Barra de Jangada, um nome que, me parece, caiu em desuso. Em seus últimos anos, era muito frequentado por ratazanas. Quando as vi, passeando livremente pelos arredores do lugar onde eu estava jantando, deixei de ir ali.

A Palhoça do Melo (Graças, próximo à Ponte da Capunga) servia um gostoso galeto na brasa. Foi, pelo que sei, um dos primeiros restaurantes do Recife a se especializar em galetos, aproveitando o momento em que sua matéria prima começou a cair muito de preço. (Lembro-me de que, até os anos 1960, comer “galinha” não era coisa que nós, da classe média, pudéssemos fazer todos os dias.) Parece que fechou, como quase todos os outros relacionados nesta memória.

Não é o caso do Dom Pedro (Rua do Imperador, Santo Antônio, Recife), entretanto, inaugurado em 1967 e do qual, nas lembranças de Ivan, Luiz Alves Martins foi sócio, antes (depois?) de fundar o Casemiro e de arrendar o Restaurante da AIP (Associação Pernambucana da Imprensa), na Dantas Barreto. Este último, entretanto, não me lembro de ter sido frequentado por Mauro. Fundado em 1967, o Dom Pedro ainda existe.

É importante esclarecer aos jovens que, quarenta ou cinquenta anos atrás, ainda não havia este modismo gastronômico de hoje, quando cada cozinheiro se acha um Pablo Picasso ou um Wassily Kandinsky, a criar desenhos estrambóticos e dispô-los nos pratos, sem preocupação com o sabor que suas supostas comidas possam ter. No tempo de Mauro, bom cozinheiro era aquele que sabia cozinhar. Que ideia estranha, não?

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Como eram as casas da Mangabeira de Cima?

Uma rua chamada Olímpio (VIII)
Gustavo Maia Gomes
(16/2/2018)


Um anúncio em inglês (para atrair inquilinos estrangeiros) das casas da então rua
Moura Esteves, futura Olímpio Tavares (Diário de Pernambuco, 1927)

Tal qual M. Jourdain, o burguês fidalgo de Molière que falava em prosa e não sabia, eu morei anos na Mangabeira de Cima, Recife, sem ter a menor suspeita disso. Era onde ficava a rua Moura Esteves. Esses nomes antigos já tinham caído em desuso, no meu tempo: Mangabeira de Cima se chamava, então, Casa Amarela; Moura Esteves passara a ser Olímpio Tavares. Como eram aquelas casas, a minha e as de meus amigos, urbanística e arquitetonicamente falando? O que havia dentro delas, de móveis e utensílios?

Muros e paredes

Achei notável este anúncio, publicado no Diário de Pernambuco em 7 de outubro de 1952: “Vende-se [residência] com três quartos, salas de jantar, de visitas e terraço, entrada para automóvel, por preço de ocasião. Sita à Rua Olímpio Tavares, 37, junto à Estrada do Arraial”. Ele descreve uma casa típica da rua em que morei quando criança e adolescente. Ressaltar a “entrada para automóveis” em 1952, pensei, indicava certo pioneirismo. Ainda, pouca gente tinha carro, naquele ano.

Só que, recuando a pesquisa, encontrei este outro, publicado 25 anos antes: “Alugam-se casas modernas, com boas acomodações, saneadas, luz, água, entrada para automóveis, na linha de Casa Amarela, rua Moura Esteves. Ótima ocasião para estrangeiros” (Diário de Pernambuco, 5/1/1927). Moura Esteves era como se chamava a rua que, em 1929, ganhou o nome Olímpio Tavares. Muitos conheciam o bairro como Mangabeira de Cima. O anúncio de 1927 já fala em “entrada para automóveis”! O pioneirismo vinha de longe.

Foram Olímpio e seus filhos (certamente, os donos das terras) que, em 1926, edificaram as 20 ou 21 casas iguais, dos dois lados da rua, se é que existia, mesmo, uma rua ali, antes disso. Tinham em mente, como potenciais inquilinos, preferencialmente, os estrangeiros. E, pelo jeito, em alguns aspectos, eram dotados de uma concepção arquitetônica avançada para a época.

Com o tempo, as casas foram sendo modificadas. Meu pai comprou a dele em 1950. Reformou-a diversas vezes. Em 1964, fez as mudanças mais extensas. Oito anos antes disso, uma delas foi assim descrita no mesmo jornal (5/3/1958): “Aluga-se a casa n. 77 da rua Olímpio Tavares, Casa Amarela, com três quartos, duas salas com mosaicos e tacos, dois terraços, cozinha com balcão, dois saneamentos [banheiros, suponho] com instalação de água quente [quase certamente, fios e tomada para chuveiro elétrico], estucada com lustre nas salas, quarto externo para empregado, jardim e grande quintal arborizado”.

Grandes quintais – que coisa boa! – eram comuns a todas as casas, com apenas duas ou três exceções. Continuam assim, ainda hoje. Em 1959, um proprietário pôs sua casa para alugar e se lembrou de dizer que a rua era calçada (13/2/1959). Acho que o calçamento foi feito em 1954, como parte das comemorações pelos 300 anos desde a expulsão dos holandeses. A rua Olímpio Tavares fica ao lado do Sítio Trindade, ou Arraial do Bom Jesus, um local histórico da guerra contra os invasores batavos.

A despeito de seus aspectos pioneiros, as casas da rua Olímpio Tavares tinham defeitos arquitetônicos graves, quando avaliadas pelos padrões que viriam a predominar décadas mais tarde. Aproveitavam mal a ventilação, a ponto de as duas salas serem quase de nenhuma utilidade, pelo excesso de calor. Os quartos se abriam para a área social, ficando longe do único banheiro interno existente. (Não sei se as dependências de empregadas foram uma adição posterior ao projeto original. Elas tinham seu próprio banheiro.)

A planta única não diferenciava as casas voltadas para o nascente das que encaravam de frente, com a mesma disposição de cômodos, o insuportável sol da tarde. Antes da vulgarização do ar condicionado, um fenômeno dos anos 1990, o inevitável incômodo causado pelo calor nordestino naquelas casas era aumentado por esses defeitos em sua concepção. Sim, as casas da Olímpio Tavares tinham problemas. Mas, eram boas assim mesmo.

Recheio

Como Gilberto Freyre mostrou há quase cem anos, os jornais são uma rica fonte de informações econômicas e sociológicas. Vejam o caso dos anúncios das coisas que as famílias punham à venda por motivo de viagem ou quando trocavam um item antigo por outro mais novo. (Todas as citações são do Diário de Pernambuco.)

Na rua Olímpio Tavares, 97, a família queria vender “um fogão Dako, seminovo, com duas bocas, um ótimo forno a carvão” (26/4/1957). Em 1958, aparecem anúncios de venda de “um refrigerador da marca Frigidaire seis e meio pés, perfeito funcionamento” (7/3); de uma máquina de costura Singer (17/10) e de “uma radiola Philips seminova, motivo viagem” (6/11).

No ano seguinte (1959), alguma melhoria se observa: a máquina de costura posta à venda tinha “motor e farol, último modelo” (6/1), enquanto a radiola Philips era dotada de “três rotações e de um rádio com quatro faixas” (7/1). Apareceu, também, o anúncio de venda de “sala de jantar, um guarda-roupa, um penteador com pedra-mármore, e um quarto de Sucupira. Ver e tratar na rua Olímpio Tavares, 47” (12/9).

Mas, reveladoras mesmo eram as vendas que se deviam a mudanças da família para outra cidade, pois, nessas ocasiões, podíamos ter uma ideia mais completa do que havia de bens móveis naquelas casas, de seu recheio. Um exemplo: “vende-se um bom piano, geladeira Hotpoint perfeita, fogão a gás com forno, duas camas americanas Simmons, máquina de lavar roupa Maytag americana com novo motor, talheres para 12 inoxidáveis, rádio, telefone novo, outros móveis” (2/6/1963).

Ou ainda, a mesma família, poucos dias depois, complementando o anúncio acima: “vendem-se duas cadeiras, sofá-cama Drago, um relógio de parede, talheres inoxidáveis americano para 12, jogo de louça americana, uma cristaleira” (19/6/1963).

Ou seja, nos primeiros anos 1960, uma família de classe média-média, como eram, tipicamente, as que moravam na rua Olímpio Tavares, podia, perfeitamente, possuir piano, geladeira, fogão a gás com forno e, até mesmo, uma máquina de lavar roupa.

Também tinha automóvel: importado da Inglaterra, França e Estados Unidos, nos anos 1950; fabricado no Brasil, na década seguinte: “Vendo. Em ótimo estado de conservação, Volkswagen 1963, todo equipado, rádio, forro de napa, cilibrine, jante 67, cor pérola, pneus novos, etc. Motivo viagem”. O que era, mesmo, “cilibrine”? (16/3/1969)

Dos carros, já falei, em capítulos anteriores. Nos anos 1960, sobretudo, em sua segunda metade, praticamente, todas as famílias residentes na rua Olímpio Tavares possuíam automóveis. Mais velhos do que novos, em sua maioria. Alguns, como o de um certo vizinho meu, de tão danificados, parecendo andar por um milagre.

Nossa vida era boa; a delas, nem tanto

Uma rua chamada Olímpio (VII)
Gustavo Maia Gomes
(16/2/2018)


A rua Olímpio Tavares (Casa Amarela, Recife), em 1965
(Foto Gustavo Maia Gomes)

“Precisa-se de cozinheira” no número 120 da rua Olímpio Tavares, anunciava o Diário de Pernambuco, em 2 de outubro de 1954. Ah, sim! Aquelas famílias tinham empregadas domésticas. O anúncio completava: “Ordenado, 250 cruzeiros”.

Será interessante avaliar esse número sob três ângulos. (1) Para a empregada, 250 cruzeiros mensais eram muito ou pouco? (2) Para a patroa (ou seu marido, tipicamente, o único a ter renda monetária na família), era caro ou barato contar com uma cozinheira? (3) De 1954 a 2018, melhorou ou piorou a remuneração real das domésticas da rua Olímpio Tavares?

Vamos por partes.

A situação em 1955

Na edição de 17/6/1961, o jornal A Noite, do Rio de Janeiro, publicou a reportagem “Em 1930, ovo era um tostão”. Ali aparece uma preciosa lista dos itens básicos de alimentação com informações de quanto custava cada um, em anos próximos.

Em 1955, eram os seguintes essas mercadorias e seus preços em cruzeiros (Cr$), a moeda da época: Cebola (13,30), Charque (41,80), Farinha de Mandioca (5,00), Feijão (12,10), Manteiga (82,20), Açúcar (8,00), Arroz (17,60), Banha (28,60), Batata (8,30), Café em Pó (54,20), Carne de Vaca (36,10), Pão (9,70), Leite (5,10), Ovos (25,80). Os preços se referem a porções de um quilograma, exceto nos casos do Leite (litro) e Ovos (dúzia).

Somando tudo, essas quantidades de alimentos (suficientes para o consumo mensal de uma pessoa) custavam Cr$ 347,80. Portanto, alguém que ganhasse meros Cr$ 250,00 mensais (como a cozinheira da rua Olímpio Tavares, 120) não teria dinheiro nem para comprar a cesta básica. Bem, as empregadas recebiam grátis todas as refeições do dia. Mesmo assim, seu salário em espécie mal passava de setenta por cento do valor daquele conjunto de mercadorias essenciais à sobrevivência.

Dou o desconto de que os preços no Recife poderiam ser menores do que no Rio de Janeiro. Digamos que fossem 28% mais baixos. Nesse caso, a “cesta básica” na capital pernambucana poderia ser comprada com os Cr$ 250 recebidos pela cozinheira como “ordenado”. Era uma miséria, evidentemente, o que ela ganhava.

Hoje está melhor

Agora, podemos ver tudo isso por outro ângulo, que mostra como, desde 1955, a situação melhorou muito para as empregadas domésticas da rua Olímpio Tavares.

Em 2018, no Recife, são os seguintes os preços aproximados (nas feiras de bairros) das mesmas mercadorias listadas acima, apenas substituindo cruzeiros por reais e “Banha” por “Óleo de Cozinha”: Cebola (2,50), Charque (19,90), Farinha de Mandioca (3,00), Feijão (3,20), Manteiga (11,00), Açúcar (2,50), Arroz (3,00), Óleo de Cozinha (5,00), Batata Inglesa (2,50), Café em Pó (4,50), Carne de Vaca (25,00), Pão (6,00), Leite (5,10), Ovos (5,00). As quantidades, de novo, são porções de um quilo, exceto nos casos do Leite e Óleo de Cozinha (litro) e Ovos (dúzia).

A “cesta básica” de 2018, definida no parágrafo anterior, igual à de 63 anos atrás, custa R$ 96,00. Ocorre que, nos dias de hoje, uma cozinheira ou arrumadeira na rua Olímpio Tavares não ganha menos de R$ 1.000,00 – cerca de um salário mínimo. Seu salário, consequentemente, pode comprar dez vezes (e não mais apenas uma vez) o consumo essencial mensal de alimentos de uma pessoa.

Sem falar que as domésticas de hoje têm condições gerais de trabalho muito melhores, com férias, décimo-terceiro salário e aposentadoria asseguradas. E continuam fazendo, pelo menos, uma refeição por dia grátis, na casa da patroa. Não foram os governos populistas recentes que outorgaram esses benefícios, pois o que eles dão com uma mão, a inflação tira com a outra. O movimento vem de muito antes e responde não apenas a políticas e leis, mas, sobretudo, às forças de mercado.

Voltando ao passado

Em 23/12/1953, a mesma casa da rua Olímpio Tavares cuja família residente queria contratar uma cozinheira pagando Cr$ 250, tinha sido posta para alugar por Cr$ 2.500. O ordenado da empregada equivalia, portanto, a dez por cento desse valor. Atualmente, uma casa típica da mesma rua se aluga por R$ 3.000. Se a relação de valores observada em 1953-54 ainda prevalecesse, a cozinheira receberia apenas R$ 300. Menos de um terço do que ela, de fato, recebe hoje.

Tenho outra forma de calcular o “ordenado real” da cozinheira. O salário mínimo, em outubro de 1954, era de Cr$ 2.400; a empregada da velha rua Olímpio Tavares receberia, portanto, um décimo desse valor. Hoje, a sua sucessora na mesma localidade ganha, por baixo, um salário mínimo. Dez vezes mais do que a cozinheira de antigamente recebia. E as condições de trabalho que ela tem, no presente, são incomparavelmente melhores.

Sem pretender transformar a rua onde morei dos três aos 23 anos de idade no centro do mundo, as comparações feitas acima não deixam de ser interessantes. E sugestivas de uma grande melhoria nas condições de vida daquelas trabalhadoras que, ainda hoje, estão entre os menos qualificadas e, portanto, de menores salários.

Uma descrição completa das “condições de vida” das domésticas teria de ir muito além do aspecto salarial. No contexto de uma sociedade que, então muito mais do que hoje, reduzia as mulheres a seres de segunda classe, as domésticas eram ainda mais desvalorizadas. Tinham de estar em plantão permanente – o fato de dormirem na casa da patroa tornava isso inevitável – e, muitas vezes, eram transformadas em objetos sexuais dos filhos dos patrões. Só lentamente foram recebendo benefícios como férias e descanso remunerado aos domingos.

A Rua Olímpio Tavares, naqueles anos, não era diferente das demais ruas do Recife, a esse respeito. Ainda bem que isso mudou.

O ângulo da patroa

Não tenho informações diretas, nem mesmo aproximadas, sobre os rendimentos médios ou típicos das famílias que habitavam, em 1954, as casas da minha rua de criança. Mas, posso fazer uma estimativa não absurda, a partir do aluguel que elas (a julgar por um anúncio encontrado no Diário de Pernambuco) pagavam, no mesmo ano: Cr$ 2.500. (Isso, num caso. Os outros, porém, não deviam ser muito diferentes pois, nesse ano, as casas da Olímpio Tavares ainda eram muito parecidas umas com as outras.)

O passo seguinte seria conhecer que percentagem de sua renda total que aquelas famílias estavam dispostas a destinar ao pagamento do aluguel da casa. Faço a hipótese de que fosse algo próximo de 20%. Combinando a informação sobre o valor do aluguel com esse parâmetro de 20%, uma família típica da rua chamada Olímpio, em 1954, (e havia pouca discrepância entre elas, se excluirmos o “rico” comerciante Bento da amostra) devia ganhar cerca de Cr$ 12.500 por mês.

Devo dizer que, se essa mesma metodologia de cálculo for aplicada às famílias da rua Olímpio Tavares nos dias atuais, o resultado obtido parece bastante plausível. O aluguel de uma casa típica na rua é, hoje, próximo a R$ 3.000. Ou seja, se a disposição de gastar 20% da renda em aluguel for admitida como uma boa aproximação da realidade, a renda familiar padrão (somando, como hoje é a regra, os ganhos do homem e da mulher) na rua onde morei até 1970 será de R$ 15.000. Esse número não está muito longe da realidade contemporânea.

Voltemos a 1954 e à segunda pergunta feita lá no alto: para a patroa (ou seu marido, ou os dois), era caro ou barato contar com uma cozinheira? Mais uma vez, era barato. Mesmo que, para a família, a empregada doméstica custasse duas vezes mais do que o seu salário nominal (pois comia de graça no emprego, além de consumir água e luz elétrica para fins pessoais), ainda assim isso significaria Cr$ 500 divididos por Cr$ 12.500, o que corresponde a quatro por cento dos rendimentos conjuntos de seus empregadores. Em outras palavras, a família gastava com a cozinheira apenas quatro por cento de seu rendimento total.

Na atualidade, a renda típica da família moradora à rua Olímpio Tavares é de R$ 15.000 e o custo total da sua empregada deve exceder R$ 1.250, considerando um salário nominal de R$ 1.000 acrescido dos encargos sociais e despesas de alimentação, luz e água. Portanto, a cozinheira custa, hoje, para a família que a emprega (como proporção do rendimento total desta) oito por cento. Duas vezes mais do que custava em 1954.

Esses cálculos, embora grosseiros, não deixam de captar a essência do que aconteceu no Brasil, em Pernambuco, no Recife e na rua Olímpio Tavares, nos últimos 60 anos: o progressivo aumento da remuneração real das empregadas domésticas. E a melhoria geral de suas condições de trabalho.

O menino de sete anos – esta era minha idade, em 1954 –, seus pais e vizinhos estavam escrevendo a História sem terem a menor noção disso.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

No tempo de miss Júpiter

Uma rua chamada Olímpio (V)
Gustavo Maia Gomes
(7/2/2018)
Moravam pessoas interessantes na rua Olímpio Tavares, em Casa Amarela, Recife, em meu tempo de criança, adolescente, adulto jovem. Aí pelos anos entre cinquenta e setenta dos 1900. Nenhum Rui Barbosa, Princesa Isabel, Gilberto Freyre ou Anita Garibaldi. Mas, gente para ser lembrada, mesmo com toda a sua falta de proeminência. Qualidade que, afinal, elas repartiam comigo.
Gente como Itacy, pai de Otávio e dono de um Javelin (“Já Vem Ruim”, depreciávamos). Mantinha-o parado, sem um grão de poeira. Lustrando. Com o carro, se relacionava bem; com o filho, vivia às turras, entremeadas por espancamentos. Otávio inventava expressões: “fábrica de bater prego” significava qualquer coisa muito barulhenta; “catinga de mau cheiro”, a fedentina insuportável.
Também fabricava botões de quenga. Explico. No futebol de mesa havia os botões de chifre, que podiam ser de torno ou de detenção – quer dizer, produzidos por presos –, e os de quenga, a casca dura do coco. Pela ordem hierárquica, os de torno eram os melhores; os de detenção superavam os de quenga, exceto, talvez, os de quenga fabricados por Otávio -- a quem chamávamos Bifuca.
Ele e o pai moravam na parte baixa da rua. Em frente, uma casa maior era a de Bento. Esse não tinha filhos, de modo que pouco sabíamos da vida dele. Comerciante, talvez. Seu Chevrolet 1950, ainda brilhando de fábrica, tinha pneus com faixa branca, impecáveis. Aos domingos, Bento fazia com ele a volta do quarteirão. Nos outros dias, o carro ficava na garagem.
Poucas casas acima, viviam Djanira e os filhos Antônio, Maria Júlia e Marta. Antônio, vários anos mais velho do que eu, tentou ser piloto da Aeronáutica. Não conseguiu. Sua visão, se minha lembrança é correta, não era suficientemente boa. Mesmo assim, passou anos longe da rua. Deve ter estudado fora do Recife, para onde, que eu saiba, só voltou já adulto.
Marta era bonita. Com pendores artísticos reais ou imaginários, puxava os desfiles cívicos do Colégio Bandeirantes – era a baliza, como dizíamos. Nessas ocasiões, suas pernas públicas chamavam a atenção, em tempos tão recatados. Um dia, houve um concurso de beleza num pequeno clube do bairro. Com medo, talvez, de que uma derrota abalasse o prestígio de Marta, Djanira escalou Maria Júlia para concorrer. Ela ganhou. Tornou-se a única miss Júpiter de todos os tempos.
Do outro lado da rua, o casal Barreto – Antônio e Georgina – tinha três filhos: Lula, Papu e Linda, e um agregado, Amaro, irmão de Georgina. Esse não trabalhava. Um dia, em 1958, “seu” Barreto – comerciário – morreu. A família entrou em grave crise econômica. Para sobreviver, Georgina vendeu as galinhas e os periquitos que o marido criava no quintal. Tentou fazer Amaro conseguir um emprego, mas, não conseguindo, pôs a casa para alugar. Nunca mais soube deles.
Jairo, quando adulto, foi trabalhar em Maceió e ficou por lá. Mas, antes disso, morou um tempo com os pais Durval e Ester na rua chamada Olímpio. Ainda hoje é amigo de meu irmão, Ivan, e meu. Durval (gerente de uma distribuidora de bebidas) e Ester tinham outros quatro filhos: Haidé, Raquel, Fernando e Zélia. Todos se mudaram, em meados dos anos sessenta, para o Rio de Janeiro.
Todos, menos Jairo, que passou uma temporada conosco. Não quis sair do Recife por causa de Neide, com quem se casou. Frequentemente, driblando a vigilância da noiva, fazia programas noturnos e, ao chegar, de madrugada, repetia aos gritos “Ivanzinho, Gustavinho” enquanto caminhava da rua ao quarto onde dormíamos, externo à casa. Para afugentar os ladrões, explicava ele.
As casas dos irmãos Aguiar, Marcelo e Marcos, ficavam aos lados da minha. Marcelo votava em Adhemar de Barros, o governador rouba-mas-faz de São Paulo que se candidatou duas vezes a presidente. Quando saiu da Goodyear, a fábrica de pneus de que era representante comercial, comprou um carro Renault Rabo Quente. Tinha opiniões inflexíveis sobre política e moralidade, que defendia aos gritos. Eu jogava baralho com seu filho Zé Paulo. Ele sempre roubava. Não por isso, também era surrado regularmente pelo pai. Sem grandes resultados. Sua vida foi tumultuada.
Com Marcos, o segundo Aguiar, tive relações duradouras. Demasiadamente duradouras, receio. Ele era médico e uma de suas filhas viria a ser minha primeira mulher. Podia se irritar facilmente e, então, ser agressivo. Criava porcos no quintal. Para alimentá-los, recolhia restos de verduras e excrementos de galinha, punha tudo em um tonel e deixava a mistura apodrecer na calçada da casa. O mau cheiro resultante invadia as narinas de quem estivesse num raio de cem metros.
Seu repertório de excentricidades é inexcedível. Durante um tempo, foi radioamador, numa categoria abaixo da principal. Como falava alto, podíamos acompanhar suas conversas noturnas a certa distância. De uma feita, desentendeu-se em pleno ar com a vizinha Sofia e, literalmente, a mandou "à merda". A mulher ficou uma arara. Deve ter protestado em alguma instância, produzindo um pequeno escândalo. Em consequência, Marcos teve o registro cassado ou foi suspenso por um tempo.
Certa feita, ele colocou uma bezerra no Perfect. Algo, aparentemente, impossível, pois aquele era um carro muito pequeno. Noutra, alojou uma vaca na Kombi, cujo espaço era maior, mas, não tanto. A cabeça do animal ficou projetada sobre o banco da frente, entre o motorista e o acompanhante, como se fora a de um passageiro. Não sei se a vaca participou da conversa entre Marcos e seu genro Manuel, que estava no carro e me contou o episódio, anos atrás.
Muitos dos sucessivos automóveis do meu futuro sogro não tinham bomba de gasolina. Pelo menos um carecia de freios confiáveis. Outro, só engatava a primeira marcha se um menino se esgueirasse por baixo dele com uma chave inglesa e destravasse alguma coisa. Era o mesmo menino que, ajudado por terceiros, empurrava o carro para pô-lo em movimento, pois não havia motor de partida.
A bomba quebrada – isso aconteceu com um dos carros – foi substituída por uma lata de combustível soldada em cima do carburador. A gasolina fluía por gravidade. Exceto nas ladeiras, quando era preciso que alguém se sentasse ao lado do motor, com a tampa parcialmente levantada, e suprisse o combustível manualmente, enquanto a viagem prosseguia. Sou testemunha ocular de quase tudo isso. À época, havia pouca fiscalização nas estradas; quase nenhuma nas cidades. E Marcos sempre se safava, se parado fosse, distribuindo amostras grátis de remédios aos policiais.
A mulher, Carmita, prima de minha mãe, era mais inteligente que o marido. Os filhos Antônio e Marcos, quando meninos e rapazes, foram amigos muito próximos. Estudamos um ano juntos, 1964, no Colégio Salesiano. Mas a amizade não sobreviveu à minha separação, em 2001. O mais velho chegou a praticar espionagem, começando a carreira com a tomada de fotos de meu quintal, para instruir a tentativa de extorsão feita pela irmã, de quem eu estava a me divorciar. Nos últimos anos, nos reconciliamos, relativamente.
Simplício, um velho mecânico solteirão que comprava carros velhos para reformar e revender, residia na parte mais alta da rua. Quase certamente, era homossexual, um escândalo, naquele tempo. (A rua teve outro deles, este notório, muito mais tarde: Airton, codinomes Marlene e Prefeitura. Tocava piano muito bem, para a rua inteira ouvir.) Simplício morreu, provavelmente, durante a primeira metade dos anos cinquenta. Muito depois, veio morar na rua, mas em outra casa, Albertino, que também ganhava a vida reformando carros velhos.
A casa em frente à minha – uma casa grande, contrastante com as demais, devia ter sido sede de engenho – era habitada pela família Amorim: Wandelcy e Nelly, os pais; Waldir, Nellysinha, Walter e Walmir, os filhos. Waldir era introspectivo, passou um tempo no Seminário, leu o livro e se entusiasmou com Liberdade sem Medo, de A. S. Neil. Viria a ser médico. Sua história terminou em tragédia, há um ano, mais ou menos. Nellysinha nasceu sem antebraços e sem mãos, mas, admiravelmente, teve vida tanto quanto possível normal: ia às festas, dançava, namorou e se casou no tempo devido. Estudou e trabalhou como jornalista. Os outros dois filhos, Walter e Walmir, muito mais jovens do que eu, com quem, portanto, não convivi muito, viviam fazendo traquinagens. Os dois se tornaram, anos à frente, empresários de sucesso.
Havia gente merecedora de lembrança também nos arredores da rua Olímpio Tavares. A lanchonete em frente à igreja do Arraial, distante 200 metros de onde eu morava, foi construída por um certo José. Era muito frequentada por nós todos, sempre ávidos por conversas e cervejas. Depois, vendido em sucessivas operações, o lugar foi bater nas mãos de um sujeito esquisito, logo apelidado de Sujinho, ou Todo-Sujo. Fazia suas necessidades no chão da própria barraca, que passou a exalar uma autêntica catinga de mau cheiro, como diria Otávio Bifuca.
Nas reuniões dominicais na calçada da igreja (fingíamos ir à missa, mas estávamos de olho, mesmo, nas meninas), era impossível não encontrar Rui, autoconvencido de ser a pessoa mais feia do mundo. Com certa razão, devo admitir. Do mesmo modo que nunca deixávamos de ver Candinho, um débil mental com um olho aberto e outro fechado. Dizia ele, para não gastar os dois ao mesmo tempo. O vendedor de cavacos (aqueles biscoitinhos enrolados que ainda hoje compro nas ruas), frequentemente, terminava ali seu dia de serviço, vendendo-nos toda a mercadoria restante. Mercadoria que ele transportava num grande recipiente metálico cilíndrico pendurado às suas costas.
Não sei como os vizinhos da rua Olímpio Tavares nos viam, a meus pais, irmãos e a mim, nos idos de cinquenta e sessenta. Discretos; talvez nem fôssemos notados. Ou, quem sabe, contraditoriamente, nos tomassem por esnobes, pobres, presunçosos, medíocres. Cabe a eles dizer.
Bons tempos, os da miss Júpiter.