quinta-feira, 26 de outubro de 2017

MAIS UM POUCO DO JORNALZINHO QUE NUNCA EXISTIU



O Diário do Dia teve uma única edição, que nem sequer circulou. Guardada no baú durante 23 anos, está vindo à luz aos poucos, aproveitando-se das mídias modernas e baratas.
Também conhecido como DDD, o jornaleco vangloriava-se de ser um "matutino pernicioso", para se diferenciar do Diário da Noite, "vespertino noticioso" e principal concorrente.
A seção de Economia do jornal trazia uma notícia, reproduzida abaixo, e uma entrevista com o Prêmio Nobel Rescaldo Sangrento, que sairá em breve neste Facebook.

Ex-Sudene declara guerra à pobreza
(Escrito em 30/11/1994)
Totalmente modernizada e com novo nome, a antiga Sudene (agora Superintendência Extraordinária do Desenvolvimento Ambiental do Nordeste -- Sedane) já está executando o vigésimo-oitavo Plano Quinquenal de Desenvolvimento de sua diretoria, cujo objetivo básico é a total erradicação da pobreza no Nordeste num prazo de 1200 anos, com direito a prorrogação de 30 minutos (dois tempos de 15, sem intervalo) e disputa de pênaltis, se ainda persistir o empate.
Os primeiros resultados do programa são alentadores, conforme anunciou ontem, em reunião secreta consigo mesmo, o hiperintendente Joca Pente Fino: com apenas uma semana de execução, o Plano Diretor já livrou permanentemente da pobreza nada menos do que cinco famílias nordestinas, incluindo a do próprio hiperintendente, a de seu assessor para assuntos hipotéticos e a de sua amante italiana Marta Melappica.

"A HISTÓRICA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA" E "UM HÁBITO ANTIGO, ORA EM DESUSO"


A HISTÓRICA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA
A estada de poucas semanas do príncipe regente D. João em Salvador, fugindo de Napoleão, em 1808, foi pródiga em realizações importantes. Copio do site da Faculdade de Medicina da Bahia:
"Após abrir os portos do Brasil às nações amigas de Portugal, D. João VI assinou, em 18 de fevereiro de 1808, o documento que mandou criar a Escola de Cirurgia da Bahia, no antigo Hospital Real Militar da Cidade do Salvador, que ocupava o prédio do Colégio dos Jesuítas, construído em 1553, no Terreiro de Jesus. Em 1º de abril de 1813 a Escola se transformou em Academia Médico-Cirúrgica. Em 3 de outubro de 1832 ganhou o nome de Faculdade de Medicina, que guarda até hoje."
Em 1903, meu tio-avô Alípio Maia Gomes ali se formou médico. Ele estudou no prédio antigo, destruído em março de 1905 por um grande incêndio e reconstruído quatro anos depois. Visitei a Faculdade de Medicina da Bahia no início desta semana, aproveitando uma rápida estada em Salvador.
Durante duas horas preciosas, andei pelo centro histórico da grande cidade baiana, onde tenho amigos e parentes (que, entretanto, ainda não pude conhecer desta vez, mas que espero encontrar muito em breve).
Fotografia de 1862, de Camillo Vedani, mostra o Terreiro de Jesus e as antigas instalações dos jesuítas. A igreja tornou-se a Catedral Basílica e o Colégio dos Jesuítas, à direita, é a Faculdade de Medicina, fundada em 1808, pelo Príncipe Regente Dom João. Na praça, corava-se roupa. O alpendre da entrada do Colégio (registrado em foto de 1859) foi retirado e colocado as armas do Império em cima da porta. As árvores são recentes. (Texto e foto colhidos no site Guia Geográfico Salvador Antiga.)
Jardins e anfiteatro da Faculdade de Medicina da Bahia. (Foto Gustavo Maia Gomes, 17/10/2017)
 
Vista parcial da fachada da Faculdade de Medicina da Bahia (em cor rosa, ou terracota), começando ao lado da Catedral Basílica de Salvador. O prédio anterior foi destruído por um incêndio em 1905. Este é a reconstrução inaugurada em 1909. Após abrigar, durante alguns anos, o memorial da Medicina da Bahia, o imponente edifício recebeu de volta (em 2004) a administração e alguns cursos de extensão da Faculdade, conforme descobri no site oficial da instituição. (Foto Gustavo Maia Gomes, 17/10/2017)

UM HÁBITO ANTIGO, ORA EM DESUSO
Na parte externa do anfiteatro Alfredo Brito (Faculdade de Medicina da Bahia), foram colocadas nove estátuas de professores notáveis. Cópias das mesmas estão dispostas em um corredor interno da faculdade.
Eu aprendi, ainda nos tempos de criança, no Instituto Bom Jesus do Arraial, de Dona Inês, que professores são para ser reverenciados. Esquecemos essa lição, infelizmente. Mas, ela me foi relembrada pelos mestres petrificados da Faculdade de Medicina da Bahia, que visitei esta semana.
Alguns, já perderam partes dos corpos; em outros, nasceram plantas, cujas sementes foram trazidas pelos ventos ou os passarinhos. (Isso produziu situação constrangedora para Raimundo Nina Rodrigues, conforme comento em uma das fotos anexas.) Mas, todos continuam lá, sentados e vigilantes.
A reverência aos professores simboliza algo ainda mais elevado: a importância do estudo, do aprendizado, do conhecimento. Cito Antonio Carlos Nogueira Brito, em frase inserida no discurso de reinauguração (2001) do Anfiteatro Alfredo Brito:
“Atentai, ó vós que estais a pisar este chão. Este chão é sagrado. Este chão, este solo, esta terra são ungidos, são consagrados, são abençoados pelos deuses da Medicina. Este é o chão do santuário da Medicina primaz do Brasil”. Antonio Carlos Nogueira Britto, Vice-presidente do Instituto Bahiano de História da Medicina e Ciências Em http://www.fameb.ufba.br/historia_med/hist_med_art03.htm


Faculdade de Medicina da Bahia. Professor Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) e o que poderia ser descrito como uma ereção vegetal. (Foto Gustavo Maia Gomes, 17/10/2017)

Os professores petrificados da velha Faculdade de Medicina da Bahia. (Foto Gustavo Maia Gomes, 17/10/2017)


A BIENAL QUE NUNCA HOUVE



O Diário do Dia ("Matutino pernicioso fundado pelo Vigário Tenório, padroeiro dos vigaristas") teve somente uma edição, em 1994 que, entretanto, não circulou. Sua seção artística era sempre aguardada com ansiedade pelos que a escreviam. Eis a notícia sobre a grande exposição da época.
XXXIII Bienal
Depois de passar pela bilheteria, o visitante será conduzido ao salão de exposições, onde não existe absolutamente nada, além das paredes, chão e teto. A crítica tem sido entusiástica considerando que, nesta Bienal, finalmente foram atingidos os ideais da Escola Abstracionista. No Anhembi. (Leia abaixo o comentário de Pedro Pierre.)
Imperdível !
Atenção leitor interessado em arte: a Bienal está demais. Território dominado pelos abstracionistas, imagine que você não consegue ver, tocar, cheirar, nem manusear nenhuma das peças em exposição. É o triunfo final das ideias de Picasso, Rolasso e Caralhasso.
Até ontem, não se podia dizer que o abstracionismo reinasse sozinho nas artes plásticas, pictóricas e mictóricas, pois também existiam o concretismo, a argamassa e o cimento armado. Com a abertura da Bienal, o triunfo dos abstracionistas é definitivo. A tal ponto que, de concreto, na Bienal, só mesmo o preço dos ingressos. Mas, quem liga para essas coisas?
O leitor que me perdoe, mas faltam-me palavras para expressar a imensa satisfação que sinto em não ver a arte contemporânea.

A PEDIDOS

Primeira página da primeira (e única) edição do Diário do Dia. (Havia, ou tinha havido, no Recife, o Diário da Noite, vespertino ligado ao Jornal do Commercio). Todo o conteúdo do jornalzinho satírico-humorístico foi escrito por mim, deslumbrado com a possibilidade de preparar um texto em três colunas, com ilustrações, etc. Era o começo de uma descoberta extraordinária, para mim e para tantos de nós: o mundo dos processadores de texto e, logo depois, o da internet e das redes sociais.
Última página do Diário do Dia. Peçonha de Moraes, como disse, existiu mesmo (com outro nome, claro). O Ari Timético da outra coluna foi inventado do nada.

Naquele tempo, não havia Facebooks; a internet ainda estava engatinhando. As coisas que a gente escrevia e, por uma razão ou por outra, não publicava em jornais ou revistas, circulavam, na melhor das hipóteses, entre dois ou três amigos de carne e osso.
Foi assim que, em 30/11/1994 (é 1994, mesmo; não 1995), enquanto experimentava meu primeiro PC movido a Windows, com o Word instalado, escrevi um jornalzinho de seis folhas. Escaneei a primeira e a última e as anexo aqui. Assim, atendo ao pedido de Jose Adalberto Ribeiro, o Profeta, e Ricardo Carvalho.
A paródia de que lhes falei está na página 6: "Eu avisei!" Embora seja óbvio, para os conhecedores, quem foi o inspirador do escritor fictício Peçonha de Moraes, ao rever o material, tantos anos depois, achei cruel explorar esse lado.

Sugiro, então que meu inventado Peçonha de Moraes represente os cronistas que, ainda hoje, proliferam pelos jornais e redes sociais, escrevendo coisas que ninguém entende. Se bem que, como o verdadeiro Peçonha, duvide que jamais apareça outro.

ZÉ MARROM TIROU A ROUPA



Tenho acompanhado de longe a controvérsia sobre essas exposições de arte. (Sim, inclusive aquela com um homem nu tocado por crianças.) Soube das reações inflamadas contra elas – assim como das ainda mais inflamadas reações contra as reações. Se não estou enganado, o banco que patrocinava a primeira das duas mostras decidiu suspendê-la, certamente, temeroso de perder clientes. Parece-me que a segunda também foi prematuramente encerrada.
Alguns dos meus amigos e amigas entraram no debate, a maioria, defendendo as exposições. Outras pessoas postaram pinturas clássicas com nus femininos frontais. Masculinos, também. Portanto (penso ter sido este o raciocínio), as exposições objeto da controvérsia tratavam, sim, de arte. Fechá-las seria ato de obscurantismo, uma manifestação de censura incompatível com a democracia ocidental, universal e brasileira.
Sem ninguém me haver pedido, dou minha opinião sobre a temática geral. Esclareço que não me refiro às duas exposições específicas, pois não as conheci, nem mesmo em descrições detalhadas. Falo em tese.
“É arte?”
O fato de um quadro (ou “instalação”?) conter a representação do nu não o desclassifica como obra de arte. Mas, tampouco, o promove a tanto. Quem frequenta sanitários públicos já viu desenhadas ali uma enorme quantidade de bundas, pênis, vaginas e peitos. O conjunto dessa obra pictórica (ou seria mictórica?) merece uma tese em sociologia, mas poucos de nós estaríamos dispostos a colocá-lo no teto da Capela Sistina, em substituição aos afrescos de Michelangelo.
Isso, quanto ao nudismo, em si. E quanto ao “choque”, moral ou cultural, por assim dizer? Ao longo da História, correntes artísticas que, depois, foram consideradas valiosas, abriram seu caminho até o reconhecimento desafiando as crenças e costumes preestabelecidos. A primeira exposição de pintores impressionistas, em 1874, foi muito mal recebida pela crítica e o público. As reações iniciais (de outros artistas, pois Picasso esperou anos para exibir sua obra) à Les Demoiselles D’Avignon, principal tela cubista, foram de choque e horror.
Os exemplos poderiam ser multiplicados. Mas, de novo, o impressionismo e o cubismo vieram a ser, mais tarde, reconhecidos como expressões artísticas importantes, não pelo espanto que causaram e, sim, pela qualidade intrínseca de suas obras.
Exemplifico. Alguém já ouviu falar em Zé Marrom? Não? Nem eu. Pois, vou contar a história dele, assim mesmo. Era um comerciante muito rico que resolveu ser pintor. Produziu duzentos quadros horrorosos. Ninguém os comprou. Jamais um crítico se referiu a eles. Como tinha muito dinheiro, Marrom alugou o mais importante museu do país, na maior cidade do continente, pagou anúncios de jornal e expôs seus quadros à visitação pública, sem cobrar entradas. A exposição foi um fracasso e o assunto morreu ali. Tanto que você nunca tinha ouvido falar no pintor.

Desconfio que Zé Marrom pode ser o homem nu com os argumentos expostos ao manuseio público num evento de arte em São Paulo. De novo, todo mundo achou aquilo uma m. O cara devia voltar a vender secos e molhados.

“A GENTE NÃO FIXA A META. QUANDO A GENTE ALCANÇAR A META, A GENTE DOBRA A META”


As orientações anuais para aplicação dos recursos do FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste, hoje depositário de, mais ou menos, R$ 25 bilhões) são propostas pelo Banco do Nordeste (BNB) e discutidas, alteradas e, finalmente, aprovadas pelo Conselho Deliberativo da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), aquele mesmo que, até recentemente, tinha passado três anos sem se reunir.
Para o corrente ano, esses princípios, assim como o detalhamento das condições de juros e prazos dos empréstimos, constam do documento editado pelo BNB “FNE – Programação Regional, 2017”, disponível na internet. Chama a atenção, entre outras coisas — mas, sem causar surpresa — o caráter "politicamente correto" (arrrgh!) das “Diretrizes e Prioridades” do FNE, tanto as “espaciais” quanto as “setoriais”.
Espaciais & Especialíssimas
As “diretrizes espaciais” recomendam dar um “tratamento diferenciado e favorecido aos projetos que se localizem nos espaços reconhecidos como prioritários pelo Plano Nacional de Desenvolvimento Regional”, na suposição (altamente duvidosa) de que tal plano exista em algum outro lugar que não seja a propaganda do governo. Ou a programação do FNE.
Além disso, também são merecedores de “apoio preferencial”: (1) “no meio rural, os agricultores familiares, os mini e pequenos produtores rurais e os empreendimentos localizados em municípios com registro recente de secas”; (2) no meio urbano, “as micro e pequenas empresas, inclusive, empreendedores individuais”.
Em suma, em total acordo com o ambiente ideológico em que vivemos e afundamos, o Estado assume o papel de distribuidor de bondades para os coitadinhos. Não que isso, realmente, vá acontecer em escala relativa apreciável: os valores que grandes empresas recebem de superfaturamentos, empréstimos subsidiados, isenções fiscais e aportes amigos de capital somam uns quatro FNEs por ano. Mas, é importante repetir as palavras de ordem, na esperança de que alguém acredite nelas.
Se o bom senso prevalecesse, todos perceberiam que a melhor receita para fazer crescer a renda regional (ou a renda dos pobres) NÃO É emprestar o dinheiro errado, no lugar errado, à pessoa errada. Se o negócio, por menor que seja, for economicamente inviável, o crédito fornecido não retornará e nenhuma adição líquida ao produto social resultará do empréstimo.
Eventualmente, uma providencial Medida Provisória perdoará as dívidas pregressas e tudo começará de novo. O que era crédito virou transferência. A intenção pode ser essa mesma. Mas, então, quem precisa de um Conselho Deliberativo, de uma Sudene, de um banco? Basta armar uma tenda no meio da rua e distribuir o dinheiro. Garanto que não faltarão candidatos.
Não está nas capacidades do BNB (nem, muito menos, nas da inexistente Sudene) contestar seriamente essas premissas. Elas são fundamentais à prática política que aquieta os coitadinhos. Sem tais confortos (e já que nenhuma outra coisa melhor lhes é oferecida), eles poderiam deixar de votar nos seus protetores. Como não sou candidato a nada, lanço o protesto. Faz escuro, mas, eu canto, diria o poeta Thiago de Melo.
Setores do bem
As “prioridades setoriais” da aplicação do FNE também merecem registro. Elas têm três componentes: (1) a “expansão, diversificação e modernização da base econômica regional”, (2) o “apoio aos setores exportadores regionais” e (3) a “instalação de uma base produtiva contemplando setores inovativos ou atividades portadoras de futuro”. (Cacoetezinho pedante, esse tal de "portadores de futuro". E o futuro precisa de portadores?)
Como se percebe lendo o documento, nas “diretrizes" correspondentes a essas "prioridades setoriais" cabem nove décimos das atividades econômicas conhecidas no mundo. Nenhuma delas, entretanto, ou quase nenhuma, é exercida, no Nordeste do Brasil, por pequenos empreendedores urbanos, nem por “ainda mais pequenos” agricultores. Alguém aí conhece um pequeno produtor rural analfabeto que fabrique automóveis, tratores e máquinas pesadas?
Fiquei confuso. Afinal, vamos nos guiar pela “diretriz espacial” e emprestar o dinheiro a “atividades produtivas de uso intensivo de matérias-primas e mão de obra locais” (o que credencia o plantio de mandioca para autoconsumo a ser uma aplicação prioritária), ou iremos seguir a “diretriz setorial” e financiar a "indústria química" (excluindo os explosivos, para evitar a produção de homens-bomba), a "cadeia petroquímica, inclusive extração, refino e transformação de petróleo e seus derivados”?
Quantas horas de trabalho, de quantos técnicos, foram necessárias para escrever essas diretrizes tão ricas em lugares comuns e em complexidades raras? Quantos burocratas de nove estados nordestinos (ou seja, dez, com Minas; ou melhor, onze, com o Espírito Santo) vieram ao Recife para incluir seus setores favoritos nas “prioridades setoriais” do FNE? Quantas autoridades gastaram diárias e passagens para aprovar, na reunião do Conselho que não se reúne, a “Programação Regional” dos 25 bilhões?

Precisávamos, mesmo, de tantas andanças? Não seria mais simples baixar apenas uma “diretriz espacial-setorial-ecumênica-e-definitiva" dizendo que serão concedidos empréstimos aos projetos que demonstrem a maior capacidade de pagá-los? Ou, então, relembrando a nossa inesquecível “presidenta”, dizer assim: “a gente não fixa a meta. Quando a gente alcançar a meta, a gente dobra a meta”?

A VINGANÇA DE ARROJADO LISBOA



O DNOCS é o mais antigo órgão federal com atuação exclusiva no Nordeste, mais precisamente, no Semiárido brasileiro. Foi criado como Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS) em 1909; virou IFOCS em 1919, o “F” representando “Federal”. Em 1945, passou a se chamar Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, seu nome atual, de onde deriva a sigla pela qual é conhecido.
A ex-Inspetoria é credora de grandes benefícios legados aos brasileiros (embora isso raramente seja reconhecido), mas nunca teve vida fácil. Ao contrário. Tendo sido, de 1909 a 1959, a única instituição federal responsável por amenizar os efeitos das secas sobre as populações atingidas pelo fenômeno, concentrou sobre si todas as reclamações daqueles que desaprovavam a maneira como isso era feito.
As mais devastadoras críticas diziam respeito à alegada apropriação pelas elites locais das verbas destinadas a socorrer as vítimas da estiagem, num enredo conhecido como “indústria da seca”. As objeções mais brandas – porém, em longo prazo, não menos corrosivas –, eram levantadas por economistas e centravam fogo no “enfoque hidráulico”, uma filosofia enraizada na cultura do DNOCS (desde 1909, dominado por engenheiros) injustamente descrita como significando que, para “combater as secas”, seria necessário e suficiente construir açudes.
O então prestigiado economista Celso Furtado e, sob sua inspiração, a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, criada em 1959) dos primeiros anos, escolheram o DNOCS como o perfeito bode expiatório – apresentando-o como uma espécie de antítese da bondade. Enquanto a nova instituição se vangloriava de ser “moderna”; a antiga era tida como superada e corrompida.
Para seus defensores, a modernidade da Sudene, que contrastava com o anacronismo do DNOCS, tinha múltiplas faces. Por exemplos:
(i) A Superintendência se vinculava diretamente à Presidência da República. Ela era, portanto, capaz de realizar o bem comum. Representava o Estado onisciente, benevolente e poderoso, tal como idealizado pelos intelectuais de esquerda. Seria imune às pressões dos mandachuvas locais, enquanto o velho DNOCS havia sido capturado pelos coronéis do Sertão, a tal ponto que sua ação beneficiaria os ricos, não os flagelados pelas secas.
(ii) A nova autarquia tinha sua “Bíblia”: o Relatório do GTDN, um documento alegadamente respaldado na melhor “ciência” econômica então conhecida. (À época, todo mundo sabia de cor que aquelas letras significavam Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste.) Em contraste, as ações do DNOCS, na interpretação dos economistas “modernos”, não teriam qualquer teoria a lhes garantir a coerência. Resultavam do mero empirismo; apenas refletiam as ideias primitivas dos engenheiros. (—Ora, onde já se viu combater as secas acumulando água!)
Mas, nada é tão cruel para os crentes como a passagem do tempo. Os primeiros cristãos tinham certeza de que Jesus voltaria em poucos meses – ou, no máximo, anos. Passados alguns séculos (dois milênios, de fato), precisaram revisar suas expectativas. O Terceiro Reich alemão, que iria durar mil anos, desapareceu em doze. Até o Império bolchevique, que parecia sólido como a vontade de Stálin, se acabou. Só a inocência de Lula não dá sinais de esmorecer.
Em palcos menos heroicos, a “moderna” Sudene brilhou, de fato, durante meros cinco anos. Sua estratégia de desenvolvimento não transformou o Nordeste, seja porque era incapaz disso, seja porque não lhe foi dado o tempo suficiente. Já o “infantil” enfoque hidráulico (que só podia caber na cabeça de engenheiros!) sacudiu a poeira e voltou ao pódio.

Afinal, o que é a Transposição do São Francisco senão a vitória de Miguel Arrojado Lisboa, primeiro “inspetor geral” da IOCS, sobre Celso Furtado, inventor da Sudene?

LEMBRAI-VOS DE ARNOLD J. TOYNBEE


Pouca gente sabe, hoje, quem foi Arnold J. Toynbee (1889-1975), o historiador britânico que escreveu "A Study in History" em doze volumes! Na obra, ele examinou o nascimento, ascensão e morte de 21 civilizações da Antiguidade.
Acreditou ter descoberto uma regularidade nessa História: as civilizações sempre morrem de causas intrínsecas. A extinção advém quando elas, confrontadas com um desafio importante, não conseguem responder à altura.
Lembrei-me disso ao acompanhar o noticiário sobre esse massacre em Las Vegas, apenas mais um a acontecer nos Estados Unidos. O atirador que, de uma janela de hotel, abriu fogo sobre a multidão tinha 40 armas de alto poder compradas legalmente e registradas em seu nome.

E os norte-americanos vão continuar achando que é para ser assim mesmo. Eles não leram Toynbee.

AINDA SOBRE A NOITE DE MARCO MACIEL

O vereador (PSDB) André Regis discursando. (Foto Gustavo Maia Gomes)

Algumas considerações suscitadas pelo evento de ontem (2/10), lançamento do livro de Angelo Castelo Branco "Marco Maciel: Um artificie do entendimento", a que estive presente, com minha filha Gabriela. (A professora Lourdes Barbosa, que me teria acompanhado com prazer, teve compromisso de aula no mesmo horário.)
1. Quanto mais se desnudam as teias da corrupção, a falta de idealismo, e a mediocridade generalizada a que se viu reduzida a política brasileira, mais eu louvo Marco Maciel, de quem, ressalto, nunca fui seguidor, especialmente, durante o regime militar. Mas, a quem sempre admirei pela integridade moral, a coerência de atitudes e a pernambucanidade brasileira, se é que me entendem.
2. Marco Maciel é, talvez, o exemplo maior dessas qualidades, mas nunca esteve sozinho: nos últimos cinquenta anos, despontaram na política pernambucana nomes como Miguel Arrais, Jarbas Vasconcelos, Roberto Magalhães, Gustavo Krause, Joaquim Francisco, João Lyra, entre outros. Uns foram governadores muito bons; outros, nem tanto. Nenhum, porém, usou a política para encher as malas de dinheiro.
3. Enquanto isso, mais ou menos no mesmo período, o Rio de Janeiro era infestado por Chagas Freitas, Leonel Brizola, Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinha, Benedita da Silva, Sérgio Cabral e Pé Grande. Uma desgraça atrás da outra, com quase nenhuma pausa para respirar.
4.Mesmo São Paulo, menos infeliz do que o Rio de Janeiro, foi governado várias vezes por gente que passou das páginas políticas para as policiais, como Adhemar de Barros, Paulo Maluf, José Maria Marín (sim, ele mesmo: era vice e assumiu o governo por uns meses), Orestes Quércia, Luiz Antonio Fleury.
5. Passando, agora, para a coluna social: eventos como o de ontem são, também, oportunidades preciosas de encontrar pessoas (algumas delas, pasmem, existem fora do Facebook) e com elas conversar, ainda que rapidamente. Foi o que fiz com Joel de Holanda, Aloisio Sotero, Sérgio Alves, Girley BrazileiroJose Adalberto RibeiroMagno Martins, José Tinoco, José Paulo Cavalcanti Filho, Tácio MacielAndré RegisAngelo Castelo Branco.

6. Outros amigos ou quase-amigos também estavam lá, porém, com tanta gente concentrada num espaço pequeno, mal os pude ver ou cumprimentar. Registro: Joaquim Francisco, Roberto Magalhães, Ricardo Leitão, Taciana Mendonça, Everardo Maciel, Adalberto Arruda.

ESCÓCIA, CATALUNHA E O NORDESTE BRASILEIRO



A Escócia quer ser independente; a Catalunha quer ser independente; alguns jornalistas mal informados e economistas que erraram as contas voltam a brincar com a ideia de que o Nordeste brasileiro se torne independente.
Nada tenho a dizer sobre a Escócia ou a Catalunha. Mas, um Nordeste transformado em país sob a justificativa de que nossa pobreza (sim, sou nordestino — e moro no Recife) se explicaria pela suposta "exploração" por parte do Sudeste, esse Nordeste seria um sério candidato a Haiti.
Ao contrário de ser explorado, o Nordeste vem recebendo há décadas transferências líquidas de renda (e/ou de capitais) do restante do país. (Ou do mundo, mas essas entradas internacionais têm magnitude desprezível.)
O indicador mais claro de que somos recebedores líquidos de transferências é que temos tido um persistente saldo negativo na balança comercial, tanto com as demais regiões quanto com o resto do mundo. (O comércio interregional é mal coberto pelas estatísticas brasileiras, mas as poucas que existem me permitem afirmar isso.)
Até dez ou vinte anos, tínhamos saldo comercial positivo com o resto do mundo (porém negativo — e maior, em valor absoluto — com as demais regiões). Desde então, somos deficitários nos dois comércios. O financiamento desse duplo déficit, por definição, só pode se dar pela entrada líquida de recursos vindos de outras regiões ou de outros países.
Reconhecer isso não equivale a reservar ao Nordeste o papel de bandido, enquanto as demais regiões seriam os "mocinhos" do filme. Significa dizer que não podemos explicar nossa pobreza nesses termos simplórios de "quem rouba quem". O Haiti pensou que podia e se lascou.
O Nordeste tem um crédito enorme com as demais regiões (especialmente, o Norte da borracha e o Sudeste da indústria) como fornecedor de mão de obra não-especializada. De certa forma, o Brasil tem um débito enorme com os nordestinos (para ser sincero, não apenas com os nordestinos!) por nunca lhes ter oferecido uma educação obrigatória, universal e de qualidade, que os credenciasse a ser produtivos e ricos, fazendo com que a região também se tornasse rica e produtiva.

Por esse caminho — o de romper as condições estruturais que, realmente, explicam nossas dificuldades — podemos iniciar uma discussão potencialmente frutífera sobre a riqueza e a pobreza das regiões. A velha conversa de "coitadinho pra cá, coitadinho pra lá", só nos levará, mesmo, a continuar dependendo do dinheiro alheio.